"As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas. Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada."

Para a Paula, o Pedrinho e a Soraia
Dedicatória em "LILI INVENTA O MUNDO", Editora Mercado Aberto, 5ª Edição, Porto Alegre, 1985

MÁRIO QUINTANA nasceu em Alegrete, RS, em 30 de julho de 1906 e faleceu em Porto Alegre, RS, em 5 de maio de 1994. Durante toda a sua vida foi poeta. Seu jeito de menino matreiro acompanhou-o por todos os seus oitenta e oito anos pródigos de belas crônicas, versos, frases, pensamentos e poesias. Criou personagens - como o Anjo Malaquias - e fez-nos rir, chorar e nos emocionar. Este é o Quintana reverenciado neste Blog: o nosso anjo-menino, o nosso maior poeta.


* * *

Blog criado no dia 15 de janeiro de 2008

Fazia tempo que eu pensava em criar um blog dedicado a Mário Quintana, poeta pelo qual guardo venerável respeito e admiração. Entretanto, se recorrermos aos sites de busca na internet, encontraremos dezenas de páginas que homenageiam este personagem tão querido de todos nós, cada um com o seu jeito mas todos voltados para a transcrição de sua obra magnífica e de sua biografia inigualável. O meu seria, apenas, mais um, entre tantos e, certamente, muito modesto. Relutei muito. Hoje, dia 15 de janeiro de 2008, enfim, decidi aceitar o desafio que fiz a mim mesmo e eis aqui "SAPATOS E CATAVENTOS", com o qual presto a minha gratidão a Mário Quintana por ter vivido entre nós. Para mim não basta ler os seus poemas, suas crônicas e citações nos livros de minha biblioteca. Acho que transcrevendo-os eles permanecem mais vivos e palpitantes, dando-me a oportunidade de compartilhar com outras pessoas o prazer, a alegria e a emoção que eles transmitem. Assim, meu querido Poeta, este blog é teu. É a única coisa que posso fazer para te dizer "obrigado".

O QUE HÁ NESTE BLOG?

Neste blog encontraremos esquinas, relógios, anjos e telhados. Nele haverá escadas e degraus, canções, ruas e ruazinhas, rãs, sapos, lampiões e grilos. Muitas vezes surgirão gatos, solidão, mortos e defuntos, pássaros, livros, noites e silêncios, ventos, reticências e fantasmas. E poesia, quando o Poeta abrir a sua alma e deixar que do mais íntimo do seu ser, brote em abundância todos os sentimentos que os comuns mortais escondem ou dissimulam por medo de se mostrarem como são. Então ele falará de velhos casarões, de calçadas, janelas, armários, jardins, luar e muros floridos. O Poeta contará historias da cidade que ama, de espelhos, de quartos, bondes e sapatos. De brinquedos, barcos, arroios, cataventos e guarda-chuvas. E de seus baús resgatará os retratos das princesas e das amadas, numa ciranda infindável de doces e ternas reminiscências que nos encantam e comovem enquanto brinca com suas girândolas. E a homenagem singela de um admirador ao Poeta inigualável, sempre externando candura e encantamento enquanto nos revela em plenitude a ternura de seus poemas.

26 junho 2015

– CL –


PREPARATIVOS DE VIAGEM 


INTROSPECÇÃO 

Olho os meus dedos: leque metafísico...
Quando deixarei de olhar os meus dedos?

MONOTONIA 

É segundo por segundo
Que vai o tempo medindo
Todas as coisas do mundo
Num só tic-tac, em suma,
Há tanta monotonia
Que até a felicidade,
Como goteira num balde,
Cansa, aborrece, enfastia...
E a própria dor – quem diria? –
A própria dor acostuma.
E vão se revezando, assim,
Dia e noite, sol e bruma...
E isto afinal não cansa?
Já não há gosto e desgosto
Quando é prevista a mudança.
Ai que vida!
Ainda bem que tudo acaba...
Ai que vida tão comprida...
Se não houvesse a morte, Maria,
Eu me matava!

A RECORDAÇÃO 

A recordação é uma cadeira de balanço
embalando sozinha...

O SONO 

O sono é uma viagem noturna.
O corpo – horizontal – no escuro
E no silêncio do trem, avança,
Imperceptivelmente
Avança. Apenas
O relógio picota a passagem do trem.
Sonha a Alma deitada no seu ataúde:
Lá longe
Lá fora
(Ela sabe!)
Lá no fundo do túnel
Há uma estação de chegada
– anunciam-na os galos, agora –
Com a sua tabuleta ainda toda úmida de orvalho,
Há uma estação chamada
AURORA.  

CORAÇÃO 

Coração que bate-bate,
Antes deixes de bater!
Só num relógio é que as horas
Vão passando sem sofrer...

ÀS VEZES 

Às vezes
O túnel do sono é iluminado apenas pelos
     olhos verdes dos fantasmas.
Mas são inofensivos. Apenas sabem
     atravessar paredes.
Ainda bem que desta vez ainda não eram
     os monstros.
Os monstros têm olhos azuis
E a gente nunca sebe o que esperar deles!

LIRA I 

Com a linha da saudade
Teresa borda o meu nome
E Maria o vai cortando
Com a tesoura do desprezo!

LIRA II 

Cada noite que Deus dá,
Meu amor, que está no Céu,
Despetala uma estrelinha
Para ver se ainda o quero...

POESIA 

Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único, este
     efêmero instante do mundo
Estivesse pintado numa tela,
Sempre...

* * * 

(“Preparativos de Viagem” – 2ª Edição / Ed. Globo, RJ, 1989)

28 maio 2015

– CXLIX –


- CADERNO H - 

MAS TUDO É NOVO DEBAIXO DO SOL! 

    Resmungam os velhos: – “Não há nada de novo debaixo do sol” – e nem se lembram dos que, neste momento, estão recriando o mundo: os poetas, os artistas, os recém-nascidos...

DA ALMA 

    Uma alma sem mistério nem seria alma... Da mesma forma que um Deus compreensível não seria Deus.

TEORIA DO ESQUECIMENTO 

    A taça do Rei de Tule
    Dorme no fundo das ondas.
    Ele agora tem um bule:
    Lisinho, quente, redondo...

PREGUIÇA 

    Certa vez abalancei-me a um trabalho intitulado “Preguiça”. Constava do título e duas belas colunas em branco, com a minha assinatura no fim. Infelizmente não foi aceito pelo supercilioso coordenador da página literária.
Já viram desconfiança igual? 

    Censurar uma página em branco é o cúmulo da censura.  

TIC-TAC 

    Mera ilusão auditiva graças à qual a gente ouve sempre “tic-tac” e nunca “tac-tic”... Depois disso, como acreditar nos relógios? Ou na gente?

PARÊNTESES 

    Conversa de velho é cheia de parênteses e esses parênteses são cheios de parentes...

O AMIGO 

    Amigo é a criatura que escuta todas as nossas coisas sem aquela cara que parece estar dizendo: – E eu com isso?

A BORBOLETA

    Cada vez que o poeta cria uma borboleta, o leitor exclama: “Olha uma borboleta!” O crítico ajusta os nasóculos e, ante aquele pedaço esvoaçante de vida, murmura:  – Ah! sim, um lepidóptero...

DIÁLOGO INÚTIL 

    – Mas por que tu não fazes um poema de amor?

    – Todos os poemas são de amor.

DIÁLOGO CRÍTICO 

    – Mas por que falas tanto da infância em teus poemas?

    – Porque eu nunca tive infância.

A DIFERENÇA 

    O que eles chamam de nossos defeitos é o que nós temos de diferente deles. Cultivemo-los pois, com o maior carinho – esses nossos benditos defeitos.

TRISTE REFLEXÃO PARA MÃES SOLTEIRAS 

    Os filhos são um subproduto do amor.

DISTÂNCIA 

    Essas distâncias astronômicas não são tão grandes assim: basta estenderes o braço e tocar no ombro do teu vizinho.

DA INFINITA SOLIDÃO 

    Mas só Deus – que é único, que não tem par – poderia dizer o que é a solidão.

CÂNTICO DOS CÂNTICOS 

    Vamos compor, amada, um Cântico dos Cânticos: o verdadeiro Cântico dos Cânticos: – tu Te louvarás unicamente a Ti e eu Me louvarei unicamente a Mim.

VERSO AVULSO 

    Suavidade do musgo nos muros gretados...

O AUTOR INVISÍVEL 

    Certa vez, quando se realizava um garden-party num dos castelos da Inglaterra, compareceu um distinto ancião, muito bem-posto e apoiado na sua bengala. E, para constrangimento de todos, olhava detidamente na cara de cada um, como se se tratasse de um bicho ou de uma coisa. E como alguém indagasse quem era, respondeu o anfitrião que se tratava do romancista Sir Bulver-Lytton, já completamente gagá e que se considerava invisível.

    Gagá? Mas o que ele estava realizando era o ideal de todo verdadeiro romancista: ser isento de quaisquer inibições, de respeitos de qualquer ordem, e ver portanto imparcialmente o mundo. Não embelezar, não reformar, não polemizar: – ver!

* * *

“Caderno H” – Editora Globo, 2ª Edição, Porto Alegre, 1977

24 abril 2015

– CXLVIII –


- ESCONDERIJOS DO TEMPO -  

SOLAU À MODA ANTIGA 

Senhora, eu vos amo tanto
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto...

Pois que tem que a gente inclua
No mesmo alastrante amor
Pessoa, animal ou cousa
Ou seja lá o que for,
Só porque os banha o esplendor
Daquela a quem se ama tanto?
E, sendo desta maneira,
Não me culpeis, por favor,
Da chama que ardente abrasa
O nome de vossa rua,
Vossa gente e vossa casa

E vossa linda macieira
Que ainda ontem deu flor...  

SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO 

Uma procissão de espantalhos,
pela miséria colorida,
pelos atalhos
vinha:
pediam vida, queriam vida!
E as suas caras eram trágicas
porque tinham todas a mesma expressão
– que era o mesmo que não terem nenhuma expressão.
E tão insuportável era aquela cara única
que a polícia atirou em cima deles bombas de gás hilariante.
Nenhum espantalho riu.
A procissão continuou,
a procissão está agora em plena Estrada Real
enquanto
pelos atalhos
por toda a parte
por cima dos gramados
por cima dos corpos atropelados
os automóveis fogem como baratas.

XXXXXXXXX 

Quem disse que a poesia é apenas
agreste avena?
A poesia é a eterna Tomada da Bastilha
o eterno quebra-quebra
o enforcar de judas, executivos e catedráticos em todas as esquinas
e,
a um ruflar poderoso de asas,
entre cortinas incendiadas,
os Anjos do Senhor estuprando as mais belas filhas dos mortais...

Deles, nascem os poetas.
Não todos... Os legítimos
espúrios:
um Rimbaud, um Poe, um Cruz e Souza...

(Rege-os, misteriosamente, o décimo terceiro signo do Zodíaco.)

A LUA DA BABILÔNIA 

Numa esquina do Labirinto
às vezes
avista-se a Lua.
“Não! Como é possível uma lua subterrânea?”

(Mas cada um diz baixinho:
Deus te abençoe, visão...)

* * *

(Esconderijos do Tempo  – Editora Globo, SP, 1995)

30 março 2015

– CXLVII –


- A VACA E O HIPOGRIFO -  

HAI-KAI 

Em meio da ossaria
Uma caveira piscava-me...
Havia um vagalume dentro dela.  

BRANCA

Ela era quase incolor: branca, branca,
de um branco que não se usa mais...
Mas tinha a alma furta-cor!

HISTÓRIA QUASE MÁGICA  

O Idiota da Aldeia gostava de coisas brilhantes.
Mal nos respondia: éramos apenas gentes...
Mas uma noite o surpreendi falando longamente a um trinco de porta redondo, luzente de luar.
Só vos digo,
ao que parece,
que o brilho do metal abrandava, ora fulgia mais,
como se por instantes ouvisse e depois respondesse.
Só vos digo que, nestes ocultos assuntos, nada se pode dizer...

INTENÇÕES   

       Os que andam com segundas intenções não conseguem enganar ninguém. Está na cara... O perigo mesmo – porque é invisível – está nos que têm terceiras intenções.

VERBETE 

       Autodidata. – Ignorante por conta própria.

POEMA ENTREDORMIDO AO PE DA LAREIRA 

O anjo depenado tremia de frio
mas veio o Conde Drácula e emprestou-lhe a sua capa negra.
Na litografia da parede
Helena a bela grega
mantém sua pose olímpica... Desloca-se um tição:
uma chama
começa a lamber como um gato minha perna de pau.

OUTRO PRINCÍPIO DE INCÊNDIO 

... a tua cabeleira feita de chamas negras...

RELAX  

       Aquele monstro que se chamou Champollion descansava de seus estudos de egiptologia escrevendo uma gramática chinesa. 

       Porém, nós outros, os (relativamente) normais, que havemos de fazer? 

       Palavras cruzadas?

       No entanto, o perigo das palavras cruzadas é nos inocularem às vezes, para todo o sempre, os mais estapafúrdios conhecimentos. Por exemplo, há duas semanas sou sabedor de que “rajaputro” significa “nobre do Hindostão, dedicado à milícia”. Espero, o quanto antes, esquecer tal barbaridade. 

       O problema é substituir as preocupações pela ocupação. 

       Quanto ao exercício da poesia, nem falar! Qualquer poeta sabe como dói, como é preciso virar a alma pelo avesso para fazer um verdadeiro poema – salvo se você for um poeta concretista, porque, na verdade, não há nada mais abstrato. 

       Pois bem, falando em coisas sérias, o problema, seu poeta, é ocupar o espírito sem ao mesmo tempo estraçalhá-lo.

       E problemas assim – puros problemas – só mesmo os problemas matemáticos. Já o velho Pinel recomendava o estudo das Ciências Exatas como preservativo dos distúrbios mentais. 

       A Matemática é o pensamento sem dor. 

       Mas infelizmente sucede que a Matemática ainda é pior do que chinês para nós, que, nesta altura da vida, só não esquecemos as quatro operações e, quando muito a regra de três e também a teoria dos arranjos, permutações e combinações – tão útil no jogo do bicho. 

       Que resta, então? 

       Oh! Como é que eu não me lembrei disso antes?! Resta-nos um passatempo esquecido: o proveitoso, o delicioso vício da leitura.  

DE COMO NÃO LER UM POEMA 

       Há tempos me perguntaram umas menininhas, numa dessas pesquisas, quantos diminutivos eu empregara no meu livro “A Rua dos Cataventos”. Espantadíssimo, disse-lhes que não sabia. Nem tentaria saber, porque poderiam escapar-me alguns na contagem. Que essas estatísticas, aliás, só poderiam ser feitas eficientemente com o auxílio de robôs. Não sei se as menininhas sabiam ao certo o que era um robô. Mas a professora delas, que mandara fazer as perguntas, devia ser um deles.

       E mal sabia eu, então, que estava dando um testemunho sobre o estruturalismo – o qual só depois vim a conhecer pelos seus produtos em jornais e revistas. Mas continuo achando que um poema (um verdadeiro poema, quero dizer), sendo algo dramaticamente emocional, não deveria ser entregue à consideração de robôs, que, como todos sabem, são inumanos. 

       Um robô, quando muito, poderá fazer uma meticulosa autópsia – caso fosse possível autopsiar uma coisa tão viva como é a poesia. 

       Em todo caso, os estruturalistas não deixam de ter o seu quê de humano... 

       Nas suas pacientes, afanosas, exaustivas furungações, são exatamente como certas crianças que acabam estripando um boneco para ver onde está a musiquinha. 

SERENIDADE

       As caretas do Charlton Heston – pelo menos a mim não dizem nada, mas até hoje, passados tantos anos, impressiona-me a cara-de-pau de Buster Keaton. Quem havia de dizer que o primeiro lembra mais o seu antepassado simiesco e o segundo uma estátua grega? Essa misteriosa serenidade que há por detrás de toda verdadeira arte é que nos faz curtir os clímax mais trágicos. E, quando conseguimos transportá-la a nós, é ela que nos faz aceitar este mundo tal como ele é.  

* * * 

(“A Vaca e o Hipogrifo”, L&PM Editora, 3ª Edição, Editora Garatuja, Porto Alegre, 1979)

25 fevereiro 2015

– CXLVI –


- PORTA GIRATÓRIA - 

ASSOCIAÇÃO DE IMAGENS 

     Esses concertistas que tocam piano dando marradas para frente e para o alto fazem lembrar os cientistas loucos e os monstros dos filmes de horror, cujo compulsório hobby – sabe o Diabo por quê! – é exatamente tocarem piano...  

DAS NOTAS DE UM ECOLOGISTA 

     Quando acabarem todos os elefantes, acabará a bondade do mundo.

PESQUISAS 

     Andam todos os buquinistas do meu Rio Grande a procurar ansiosamente e amorosamente A divina pastora. O título é um encanto, promete um clima idílico, de quando o amor existia. Espero que esses incansáveis cavaleiros andantes libertem um dia a sua dama. Quanto a mim, o meu sonho é que o acaso depare, aos humanistas que ainda existem na Europa, os livros até agora perdidos do Satyricon de Petronius Arbiter. Indago: pois não foram encontrados, sem que ninguém os procurasse, os preciosos manuscritos do Mar Morto? Ou será que os deuses em exílio já não podem igualmente fazer milagres? O encanto que eu tenho pelo Satyricon, ao contrário do que vocês podem pensar, é também um sentimento de pureza. O que nos fascina naquele delicioso cronista é a ausência da noção de pecado, como se estivéssemos ainda no Paraíso.

ASTRONOMIA 

      Dizem os astrólogos que Saturno é taciturno. Mas só se foi para rimar... Com seus multicoloridos anéis, ele é, dentre os seus pobres irmãos do sistema solar, o único planeta que faz bambolê. 

INTENÇÕES 

      Os que andam com segundas intenções não conseguem enganar ninguém. Está na cara... O perigo mesmo – porque é invisível – está nos que têm terceiras intenções. 

ADJETIVAÇÕES 

      Era uma mulher de peregrina beleza – diziam os escritores de outrora a propósito das damas superfinas que costumavam abundar nos seus romances – e nem se davam conta que só poderia tratar-se de uma cigana. 

BRIC-À-BRAC 

      Os pianos de cauda, as sobrecasacas, as caudas dos vestidos de noiva, tudo isso está sendo contrabandeado para o reino brumoso das lendas. Agora, nem ao menos a esperança me resta de rever o cometa de Halley, com a sua ondulante cauda de cavalo celeste – a mais bela, a mais remota recordação da minha vida.
(1954) 

MONÓLOGO DO ESPECTADOR 

       “O teatro dos acontecimentos” – eis aí uma velha expressão que significa muito mais do que parece. Será que tudo não passa mesmo de um faz-de-conta? 

CRIAÇÃO ÀS AVESSAS 

     Isso da desintegração do átomo tem algo de sacrílego. É uma espécie de Criação às avessas... E depois, rompida uma única malha, não seria de temer que se desfizesse toda a tessitura?... 

FELIZ COINCIDÊNCIA 

     Tive um amigo, se não me engano chama-se Fagundes, o qual, sempre que tinha queixa contra alguém, desabafava: “Tomara que morra!” – Cruzes, Fagundes! Isso é coisa que se diga?! – protestava eu. E ele: - Acha você que ele vai morrer, só por eu ter dito isso? Se ele morrer, será apenas uma feliz coincidência... 

UMA ESPÉCIE DE CORRIDA 

     Atravessar de um ano para o outro parece-nos uma espécie de corrida. Chega-se daquele jeito que bem sabemos, mas com uma careta de triunfo na face... 

AS MÁXIMAS  

     Tenho à mão as Máximas do nosso Marquês de Maricá. Leio: “Mocidade desbragada, velhice achacosa”. Discordo e emendo: “Mocidade desbragada, velhice anedótica”. Pois os velhos que souberam estragar a mocidade, como têm coisas para contar à gente!
     Quanto aos outros, são uns sujeitos tão chatos agora como deviam ter sido há cinqüenta anos atrás. 

* * *

(“Porta Giratória” – Editora Globo, São Paulo, SP, 1988) 

26 janeiro 2015

– CXLV –


- SAPATO FURADO - 


MISTÉRIOS NOTURNOS 

No silêncio das noites soluçam as almas pelas torneiras das pias...

NOTA NOTURNA 

O silêncio é um espião

IMAGEM 

Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos?

DELÍCIA 

O que tem de bom uma galinha assada é que ela não cacareja.

OS HÓSPEDES 

Um velho casarão bem-assombrado
aquele que habitei ultimamente.

Não,
não tinha disso de arrastar correntes
ou espelhos de súbito partidos.

Mas a linda visão evanescente
dessas moças do século passado
as escadas descendo lentamente...
ou, às vezes, nos cantos mais escuros,
velhinhas procurando seus guardados
no fundo de uns baús inexistentes...

E eu fingindo que não via nada!

Mas eu fingindo que não via nada!
Agora
foi demolida a nossa velha casa!

(Em que mundo marcaremos novo encontro?)

AMIZADE 

Quando o silêncio a dois não se torna incômodo.

AMOR 

Quando o silêncio a dois se torna cômodo.

O PIOR 

O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.

VERSO PERDIDO

... eu te amo a perder de vista...

FANTASIA 

Pobre-diabo marginal entre dois mundos.
Não usa sapatos...

ALEGRE MISÉRIA 

Os teus sapatos parece que estão rindo!

* * *

("Sapato Furado", Editora Global, 6ª edição, SP, 2006)

27 dezembro 2014

– CXLIV –


- NARIZ DE VIDRO - 

Os poemas 

Os poemas são pássaros que chegam 
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês. 
Quando fehcas o livro, eles alçam vôo 
como de um alçapão. 
Eles não têm pouso 
nem porto 
alimentam-se um instante em cada par de mãos 
e partem. 
E olhas, então, essas tuas mãos vazias, 
no maravilhado espanto de saberes 
que o alimento deles já estava em ti...  


Rechinam meus sapatos 

Rechinam meus sapatos rua em fora. 
Tão leve estou que já nem sombra tenho 
E há tantos anos de tão longe venho 
Que nem me lembro de mais nada agora!

Tinha um surrão todo de penas cheio...
Um peso enorme para carregar! 
Porém as penas, quando o vento veio, 
Penas que eram... esvoaçaram no ar... 

Todo de Deus me iluminei então.
Que os Doutores Sutis se escandalizem: 
"Como é possível sem doutrinação?!" 

Mas entendem-me o Céu e as criancinhas.
E ao ver-me assim, num poste as andorinhas: 
"Olha! É o Idiota desta Aldeia!" dizem...  


É a mesma ruazinha sossegada 

É a mesma ruazinha sossegada, 
Com as velhas rondas e as canções de outrora... 
E os meus lindos pregões da madrugada 
Passam cantando ruazinha em fora! 

Mas parece que a luz está cansada... 
E, não sei como, tudo tem, agora, 
Essa tonalidade amarelada 
Dos cartazes que o tempo descolora... 

Sim, desses cartazes ante os quais 
Nós às vezes paramos, indecisos... 
Mas para quê?... Se não adiantam mais!... 

Pobres cartazes por aí afora 
Que inda anunciam: - ALEGRIA - RISOS 
Depois do Circo já ter ido embora...  


Viagem antiga  

Aqui e ali 
reses pastando imóveis 
como num presépio 

a mata ocultando o xixi das fontes  

uma cidadezinha de nariz pontudo 
furava o céu 

depois sumia-se lentamente numa curva 

e a gente olhava olhava 
sem nenhuma pressa 
porque o destino daquelas nossas primeiras viagens era sempre o horizonte 


A gente ainda não sabia  

A gente ainda não sabia que a Terra era redonda.
E pensava-se que nalgum lugar, muito longe, 
Deveria haver num velho poste uma tabuleta qualquer 
- uma tabuleta meio torta 
E onde se lia, em letras rústicas: FIM DO MUNDO. 
Ah! depois nos ensinaram que o mundo não tem fim 
E não havia remédio senão irmos andando às tontas 
Como formigas na casca de uma laranja. 
Como era possível, como era possível, meu Deus, 
Viver naquela confusão? 
Foi por isso que estabelecemos uma porção de fins de mundo...  


Recordo ainda... 

Recordo ainda... E nada mais me importa... 
Aqueles dias de uma luz tão mansa 
Que me deixavam, sempre, de lembrança, 
Algum brinquedo novo à minha porta... 

Mas veio um vento de Desesperança 
Soprando cinzas pela noite morta! 
E eu pendurei na galharia torta  
Todos os meus brinquedos de criança... 

Estrada fora após segui... Mas, ai, 
Embora idade e senso eu aparente, 
Não vos iluda o velho que aqui vai: 

Eu quero os meus brinquedos novamente! 
Sou um pobre menino... acreditai... 
Que envelheceu, um dia, de repente!... 

Para Dyonelio Machado 


* * * 

(“Nariz de Vidro” – Editora Moderna, 1984)