"As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas. Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada."

Para a Paula, o Pedrinho e a Soraia
Dedicatória em "LILI INVENTA O MUNDO", Editora Mercado Aberto, 5ª Edição, Porto Alegre, 1985

MÁRIO QUINTANA nasceu em Alegrete, RS, em 30 de julho de 1906 e faleceu em Porto Alegre, RS, em 5 de maio de 1994. Durante toda a sua vida foi poeta. Seu jeito de menino matreiro acompanhou-o por todos os seus oitenta e oito anos pródigos de belas crônicas, versos, frases, pensamentos e poesias. Criou personagens - como o Anjo Malaquias - e fez-nos rir, chorar e nos emocionar. Este é o Quintana reverenciado neste Blog: o nosso anjo-menino, o nosso maior poeta.


* * *

Blog criado no dia 15 de janeiro de 2008

Fazia tempo que eu pensava em criar um blog dedicado a Mário Quintana, poeta pelo qual guardo venerável respeito e admiração. Entretanto, se recorrermos aos sites de busca na internet, encontraremos dezenas de páginas que homenageiam este personagem tão querido de todos nós, cada um com o seu jeito mas todos voltados para a transcrição de sua obra magnífica e de sua biografia inigualável. O meu seria, apenas, mais um, entre tantos e, certamente, muito modesto. Relutei muito. Hoje, dia 15 de janeiro de 2008, enfim, decidi aceitar o desafio que fiz a mim mesmo e eis aqui "SAPATOS E CATAVENTOS", com o qual presto a minha gratidão a Mário Quintana por ter vivido entre nós. Para mim não basta ler os seus poemas, suas crônicas e citações nos livros de minha biblioteca. Acho que transcrevendo-os eles permanecem mais vivos e palpitantes, dando-me a oportunidade de compartilhar com outras pessoas o prazer, a alegria e a emoção que eles transmitem. Assim, meu querido Poeta, este blog é teu. É a única coisa que posso fazer para te dizer "obrigado".

O QUE HÁ NESTE BLOG?

Neste blog encontraremos esquinas, relógios, anjos e telhados. Nele haverá escadas e degraus, canções, ruas e ruazinhas, rãs, sapos, lampiões e grilos. Muitas vezes surgirão gatos, solidão, mortos e defuntos, pássaros, livros, noites e silêncios, ventos, reticências e fantasmas. E poesia, quando o Poeta abrir a sua alma e deixar que do mais íntimo do seu ser, brote em abundância todos os sentimentos que os comuns mortais escondem ou dissimulam por medo de se mostrarem como são. Então ele falará de velhos casarões, de calçadas, janelas, armários, jardins, luar e muros floridos. O Poeta contará historias da cidade que ama, de espelhos, de quartos, bondes e sapatos. De brinquedos, barcos, arroios, cataventos e guarda-chuvas. E de seus baús resgatará os retratos das princesas e das amadas, numa ciranda infindável de doces e ternas reminiscências que nos encantam e comovem enquanto brinca com suas girândolas. E a homenagem singela de um admirador ao Poeta inigualável, sempre externando candura e encantamento enquanto nos revela em plenitude a ternura de seus poemas.

24 abril 2015

– CXLVIII –

 

SOLAU À MODA ANTIGA 

Senhora, eu vos amo tanto
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto...

Pois que tem que a gente inclua
No mesmo alastrante amor
Pessoa, animal ou cousa
Ou seja lá o que for,
Só porque os banha o esplendor
Daquela a quem se ama tanto?
E, sendo desta maneira,
Não me culpeis, por favor,
Da chama que ardente abrasa
O nome de vossa rua,
Vossa gente e vossa casa

E vossa linda macieira
Que ainda ontem deu flor...  

SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO 

Uma procissão de espantalhos,
pela miséria colorida,
pelos atalhos
vinha:
pediam vida, queriam vida!
E as suas caras eram trágicas
porque tinham todas a mesma expressão
– que era o mesmo que não terem nenhuma expressão.
E tão insuportável era aquela cara única
que a polícia atirou em cima deles bombas de gás hilariante.
Nenhum espantalho riu.
A procissão continuou,
a procissão está agora em plena Estrada Real
enquanto
pelos atalhos
por toda a parte
por cima dos gramados
por cima dos corpos atropelados
os automóveis fogem como baratas.

XXXXXXXXX 

Quem disse que a poesia é apenas
agreste avena?
A poesia é a eterna Tomada da Bastilha
o eterno quebra-quebra
o enforcar de judas, executivos e catedráticos em todas as esquinas
e,
a um ruflar poderoso de asas,
entre cortinas incendiadas,
os Anjos do Senhor estuprando as mais belas filhas dos mortais...

Deles, nascem os poetas.
Não todos... Os legítimos
espúrios:
um Rimbaud, um Poe, um Cruz e Souza...

(Rege-os, misteriosamente, o décimo terceiro signo do Zodíaco.)

A LUA DA BABILÔNIA 

Numa esquina do Labirinto
às vezes
avista-se a Lua.
“Não! Como é possível uma lua subterrânea?”

(Mas cada um diz baixinho:
Deus te abençoe, visão...)

* * *

(Esconderijos do Tempo  – Editora Globo, SP, 1995)

30 março 2015

– CXLVII –

 

HAI-KAI 

Em meio da ossaria
Uma caveira piscava-me...
Havia um vagalume dentro dela.  

BRANCA

Ela era quase incolor: branca, branca,
de um branco que não se usa mais...
Mas tinha a alma furta-cor!

HISTÓRIA QUASE MÁGICA  

O Idiota da Aldeia gostava de coisas brilhantes.
Mal nos respondia: éramos apenas gentes...
Mas uma noite o surpreendi falando longamente a um trinco de porta redondo, luzente de luar.
Só vos digo,
ao que parece,
que o brilho do metal abrandava, ora fulgia mais,
como se por instantes ouvisse e depois respondesse.
Só vos digo que, nestes ocultos assuntos, nada se pode dizer...

INTENÇÕES   

       Os que andam com segundas intenções não conseguem enganar ninguém. Está na cara... O perigo mesmo – porque é invisível – está nos que têm terceiras intenções.

VERBETE 

       Autodidata. – Ignorante por conta própria.

POEMA ENTREDORMIDO AO PE DA LAREIRA 

O anjo depenado tremia de frio
mas veio o Conde Drácula e emprestou-lhe a sua capa negra.
Na litografia da parede
Helena a bela grega
mantém sua pose olímpica... Desloca-se um tição:
uma chama
começa a lamber como um gato minha perna de pau.

OUTRO PRINCÍPIO DE INCÊNDIO 

... a tua cabeleira feita de chamas negras...

RELAX  

       Aquele monstro que se chamou Champollion descansava de seus estudos de egiptologia escrevendo uma gramática chinesa. 

       Porém, nós outros, os (relativamente) normais, que havemos de fazer? 

       Palavras cruzadas?

       No entanto, o perigo das palavras cruzadas é nos inocularem às vezes, para todo o sempre, os mais estapafúrdios conhecimentos. Por exemplo, há duas semanas sou sabedor de que “rajaputro” significa “nobre do Hindostão, dedicado à milícia”. Espero, o quanto antes, esquecer tal barbaridade. 

       O problema é substituir as preocupações pela ocupação. 

       Quanto ao exercício da poesia, nem falar! Qualquer poeta sabe como dói, como é preciso virar a alma pelo avesso para fazer um verdadeiro poema – salvo se você for um poeta concretista, porque, na verdade, não há nada mais abstrato. 

       Pois bem, falando em coisas sérias, o problema, seu poeta, é ocupar o espírito sem ao mesmo tempo estraçalhá-lo.

       E problemas assim – puros problemas – só mesmo os problemas matemáticos. Já o velho Pinel recomendava o estudo das Ciências Exatas como preservativo dos distúrbios mentais. 

       A Matemática é o pensamento sem dor. 

       Mas infelizmente sucede que a Matemática ainda é pior do que chinês para nós, que, nesta altura da vida, só não esquecemos as quatro operações e, quando muito a regra de três e também a teoria dos arranjos, permutações e combinações – tão útil no jogo do bicho. 

       Que resta, então? 

       Oh! Como é que eu não me lembrei disso antes?! Resta-nos um passatempo esquecido: o proveitoso, o delicioso vício da leitura.  

DE COMO NÃO LER UM POEMA 

       Há tempos me perguntaram umas menininhas, numa dessas pesquisas, quantos diminutivos eu empregara no meu livro “A Rua dos Cataventos”. Espantadíssimo, disse-lhes que não sabia. Nem tentaria saber, porque poderiam escapar-me alguns na contagem. Que essas estatísticas, aliás, só poderiam ser feitas eficientemente com o auxílio de robôs. Não sei se as menininhas sabiam ao certo o que era um robô. Mas a professora delas, que mandara fazer as perguntas, devia ser um deles.

       E mal sabia eu, então, que estava dando um testemunho sobre o estruturalismo – o qual só depois vim a conhecer pelos seus produtos em jornais e revistas. Mas continuo achando que um poema (um verdadeiro poema, quero dizer), sendo algo dramaticamente emocional, não deveria ser entregue à consideração de robôs, que, como todos sabem, são inumanos. 

       Um robô, quando muito, poderá fazer uma meticulosa autópsia – caso fosse possível autopsiar uma coisa tão viva como é a poesia. 

       Em todo caso, os estruturalistas não deixam de ter o seu quê de humano... 

       Nas suas pacientes, afanosas, exaustivas furungações, são exatamente como certas crianças que acabam estripando um boneco para ver onde está a musiquinha. 

SERENIDADE

       As caretas do Charlton Heston – pelo menos a mim não dizem nada, mas até hoje, passados tantos anos, impressiona-me a cara-de-pau de Buster Keaton. Quem havia de dizer que o primeiro lembra mais o seu antepassado simiesco e o segundo uma estátua grega? Essa misteriosa serenidade que há por detrás de toda verdadeira arte é que nos faz curtir os clímax mais trágicos. E, quando conseguimos transportá-la a nós, é ela que nos faz aceitar este mundo tal como ele é.  

* * * 

(“A Vaca e o Hipogrifo”, L&PM Editora, 3ª Edição, Editora Garatuja, Porto Alegre, 1979)

25 fevereiro 2015

– CXLVI –


ASSOCIAÇÃO DE IMAGENS 

     Esses concertistas que tocam piano dando marradas para frente e para o alto fazem lembrar os cientistas loucos e os monstros dos filmes de horror, cujo compulsório hobby – sabe o Diabo por quê! – é exatamente tocarem piano...  

DAS NOTAS DE UM ECOLOGISTA 

     Quando acabarem todos os elefantes, acabará a bondade do mundo.

PESQUISAS 

     Andam todos os buquinistas do meu Rio Grande a procurar ansiosamente e amorosamente A divina pastora. O título é um encanto, promete um clima idílico, de quando o amor existia. Espero que esses incansáveis cavaleiros andantes libertem um dia a sua dama. Quanto a mim, o meu sonho é que o acaso depare, aos humanistas que ainda existem na Europa, os livros até agora perdidos do Satyricon de Petronius Arbiter. Indago: pois não foram encontrados, sem que ninguém os procurasse, os preciosos manuscritos do Mar Morto? Ou será que os deuses em exílio já não podem igualmente fazer milagres? O encanto que eu tenho pelo Satyricon, ao contrário do que vocês podem pensar, é também um sentimento de pureza. O que nos fascina naquele delicioso cronista é a ausência da noção de pecado, como se estivéssemos ainda no Paraíso.

ASTRONOMIA 

      Dizem os astrólogos que Saturno é taciturno. Mas só se foi para rimar... Com seus multicoloridos anéis, ele é, dentre os seus pobres irmãos do sistema solar, o único planeta que faz bambolê. 

INTENÇÕES 

      Os que andam com segundas intenções não conseguem enganar ninguém. Está na cara... O perigo mesmo – porque é invisível – está nos que têm terceiras intenções. 

ADJETIVAÇÕES 

      Era uma mulher de peregrina beleza – diziam os escritores de outrora a propósito das damas superfinas que costumavam abundar nos seus romances – e nem se davam conta que só poderia tratar-se de uma cigana. 

BRIC-À-BRAC 

      Os pianos de cauda, as sobrecasacas, as caudas dos vestidos de noiva, tudo isso está sendo contrabandeado para o reino brumoso das lendas. Agora, nem ao menos a esperança me resta de rever o cometa de Halley, com a sua ondulante cauda de cavalo celeste – a mais bela, a mais remota recordação da minha vida.
(1954) 

MONÓLOGO DO ESPECTADOR 

       “O teatro dos acontecimentos” – eis aí uma velha expressão que significa muito mais do que parece. Será que tudo não passa mesmo de um faz-de-conta? 

CRIAÇÃO ÀS AVESSAS 

     Isso da desintegração do átomo tem algo de sacrílego. É uma espécie de Criação às avessas... E depois, rompida uma única malha, não seria de temer que se desfizesse toda a tessitura?... 

FELIZ COINCIDÊNCIA 

     Tive um amigo, se não me engano chama-se Fagundes, o qual, sempre que tinha queixa contra alguém, desabafava: “Tomara que morra!” – Cruzes, Fagundes! Isso é coisa que se diga?! – protestava eu. E ele: - Acha você que ele vai morrer, só por eu ter dito isso? Se ele morrer, será apenas uma feliz coincidência... 

UMA ESPÉCIE DE CORRIDA 

     Atravessar de um ano para o outro parece-nos uma espécie de corrida. Chega-se daquele jeito que bem sabemos, mas com uma careta de triunfo na face... 

AS MÁXIMAS  

     Tenho à mão as Máximas do nosso Marquês de Maricá. Leio: “Mocidade desbragada, velhice achacosa”. Discordo e emendo: “Mocidade desbragada, velhice anedótica”. Pois os velhos que souberam estragar a mocidade, como têm coisas para contar à gente!
     Quanto aos outros, são uns sujeitos tão chatos agora como deviam ter sido há cinqüenta anos atrás. 

* * *

(“Porta Giratória” – Editora Globo, São Paulo, SP, 1988) 

26 janeiro 2015

– CXLV –



MISTÉRIOS NOTURNOS 

No silêncio das noites soluçam as almas pelas torneiras das pias...

NOTA NOTURNA 

O silêncio é um espião

IMAGEM 

Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos?

DELÍCIA 

O que tem de bom uma galinha assada é que ela não cacareja.

OS HÓSPEDES 

Um velho casarão bem-assombrado
aquele que habitei ultimamente.

Não,
não tinha disso de arrastar correntes
ou espelhos de súbito partidos.

Mas a linda visão evanescente
dessas moças do século passado
as escadas descendo lentamente...
ou, às vezes, nos cantos mais escuros,
velhinhas procurando seus guardados
no fundo de uns baús inexistentes...

E eu fingindo que não via nada!

Mas eu fingindo que não via nada!
Agora
foi demolida a nossa velha casa!

(Em que mundo marcaremos novo encontro?)

AMIZADE 

Quando o silêncio a dois não se torna incômodo.

AMOR 

Quando o silêncio a dois se torna cômodo.

O PIOR 

O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.

VERSO PERDIDO

... eu te amo a perder de vista...

FANTASIA 

Pobre-diabo marginal entre dois mundos.
Não usa sapatos...

ALEGRE MISÉRIA 

Os teus sapatos parece que estão rindo!

* * *

("Sapato Furado", Editora Global, 6ª edição, SP, 2006)

27 dezembro 2014

– CXLIV –


Os poemas 

Os poemas são pássaros que chegam 
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês. 
Quando fehcas o livro, eles alçam vôo 
como de um alçapão. 
Eles não têm pouso 
nem porto 
alimentam-se um instante em cada par de mãos 
e partem. 
E olhas, então, essas tuas mãos vazias, 
no maravilhado espanto de saberes 
que o alimento deles já estava em ti...  


Rechinam meus sapatos 

Rechinam meus sapatos rua em fora. 
Tão leve estou que já nem sombra tenho 
E há tantos anos de tão longe venho 
Que nem me lembro de mais nada agora!

Tinha um surrão todo de penas cheio...
Um peso enorme para carregar! 
Porém as penas, quando o vento veio, 
Penas que eram... esvoaçaram no ar... 

Todo de Deus me iluminei então.
Que os Doutores Sutis se escandalizem: 
"Como é possível sem doutrinação?!" 

Mas entendem-me o Céu e as criancinhas.
E ao ver-me assim, num poste as andorinhas: 
"Olha! É o Idiota desta Aldeia!" dizem...  


É a mesma ruazinha sossegada 

É a mesma ruazinha sossegada, 
Com as velhas rondas e as canções de outrora... 
E os meus lindos pregões da madrugada 
Passam cantando ruazinha em fora! 

Mas parece que a luz está cansada... 
E, não sei como, tudo tem, agora, 
Essa tonalidade amarelada 
Dos cartazes que o tempo descolora... 

Sim, desses cartazes ante os quais 
Nós às vezes paramos, indecisos... 
Mas para quê?... Se não adiantam mais!... 

Pobres cartazes por aí afora 
Que inda anunciam: - ALEGRIA - RISOS 
Depois do Circo já ter ido embora...  


Viagem antiga  

Aqui e ali 
reses pastando imóveis 
como num presépio 

a mata ocultando o xixi das fontes  

uma cidadezinha de nariz pontudo 
furava o céu 

depois sumia-se lentamente numa curva 

e a gente olhava olhava 
sem nenhuma pressa 
porque o destino daquelas nossas primeiras viagens era sempre o horizonte 


A gente ainda não sabia  

A gente ainda não sabia que a Terra era redonda.
E pensava-se que nalgum lugar, muito longe, 
Deveria haver num velho poste uma tabuleta qualquer 
- uma tabuleta meio torta 
E onde se lia, em letras rústicas: FIM DO MUNDO. 
Ah! depois nos ensinaram que o mundo não tem fim 
E não havia remédio senão irmos andando às tontas 
Como formigas na casca de uma laranja. 
Como era possível, como era possível, meu Deus, 
Viver naquela confusão? 
Foi por isso que estabelecemos uma porção de fins de mundo...  


Recordo ainda... 

Recordo ainda... E nada mais me importa... 
Aqueles dias de uma luz tão mansa 
Que me deixavam, sempre, de lembrança, 
Algum brinquedo novo à minha porta... 

Mas veio um vento de Desesperança 
Soprando cinzas pela noite morta! 
E eu pendurei na galharia torta  
Todos os meus brinquedos de criança... 

Estrada fora após segui... Mas, ai, 
Embora idade e senso eu aparente, 
Não vos iluda o velho que aqui vai: 

Eu quero os meus brinquedos novamente! 
Sou um pobre menino... acreditai... 
Que envelheceu, um dia, de repente!... 

Para Dyonelio Machado 


* * * 

(“Nariz de Vidro” – Editora Moderna, 1984)  

18 novembro 2014

– CXLIII –



Canção da chuva e do vento 

Dança, Velha. Dança. Dança.
Põe um pé. Põe outro pé.
Mais depressa. Mais depressa.
Põe mais. Pé. Pé.

Upa. Salta. Pula. Agacha.
Mete pé e mete assento.
Que o velho agita, frenético,
O seu chicote de vento.

Mansinho agora... mansinho
Até de todo caíres...
Que o velho dorme de velho
Sob os arcos do Arco-Íris.  

Canção da janela aberta 

Passa nuvem, passa estrela,
Passa a lua na janela...

Sem mais cuidados na terra,
Preguei meus olhos no Céu.

E o meu quarto, pela noite
Imensa e triste navega...

Deito-me ao fundo do barco,
Sob os silêncios do Céu.

Adeus, Cidade Maldita,
Que lá se vai o teu Poeta.

Adeus para sempre, Amigos...
Vou sepultar-me no Céu!

Canção de muito longe 

Foi-por-cau-sa-do-bar-quei-ro

E todas as noites, sob o velho céu arqueado de bugigangas,

A mesma canção jubilosa se erguia.

A canoooavirou
Quemfez elavirar? uma voz perguntava.

Os luares extáticos...

A noite parada...

Foi por causa do barqueiro,
Que não soube remar.

Segunda canção de muito longe 

Havia um corredor que fazia cotovelo:
Um mistério encanando com outro mistério, no escuro...

Mas vamos fechar os olhos
E pensar numa outra cousa...

Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado das correntes no algibe,
Puxando a água fresca e profunda.
Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas.
Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes uns dos outros,
E lá dentro as palavras ressoavam fortes, cavernosas como vozes de leões.
Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu.
Havia os azulejos reluzentes, o muro do quintal, que limitava o mundo,
Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as estrelas...
Havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos...
As lindas e absurdas cantigas, tia Tula ralhando os cachorros,
O chiar das chaleiras...
Onde andará agora o pince-nez da tia Tula
Que ela não achava nunca?
A pobre não chegou a terminar a Toutinegra do Moinho,
Que saía em folhetim no Correio do Povo!...
A última vez que a vi, ela ia dobrando aquele corredor escuro.
Ia encolhida, pequenininha, humilde. Seus passos não faziam ruído.
E ela nem se voltou para trás!  

Canção da ruazinha desconhecida 

Ruazinha que eu conheço apenas
Da esquina onde ela principia...

Ruazinha perdida, perdida...
Ruazinha onde Marta fia...

Ruazinha em que eu penso às vezes
Como quem pensa numa outra vida...

E para onde hei de mudar-me, um dia,
Quando tudo estiver perdido...

Ruazinha da quieta vida...
Tristonha... tristonha...

Ruazinha onde Marta Fia
e onde Maria, na janela, sonha...


* * * 

“CANÇÕES”, Editora Globo, São Paulo, SP, 2005 – ©1994 by Elena Quintana

18 outubro 2014

– CXLII –


A CASA EM RUÍNAS 

Uma única porta
No único muro de uma casa em ruínas.
Cuidado... Quem atravessar essa porta, à noite,
Pode ficar para sempre no Outro Mundo!

A MULHER BIÔNICA 

       Para Lindsay Wagner

Eu quero uma mulher biônica
Que me ame como uma suspirosa máquina
Do mais intenso amor.
Uma mulher que quase me mate...
Mas me livre de todos os ataques!
Eu quero, eu quero uma mulher biônica
Para que eu possa, a qualquer momento,
Desparafusá-la...

REZAS 

Rezas da infância, tão puras...
Um dia a gente as esquece!
Mas o bom Deus, das alturas,
Ainda escuta a nossa prece...  

A VERDADEIRA ARTE DE VIAJAR 

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos
               [do mundo...
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam
               [logo ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração
               [cantando!

LEITURAS 

Tenho alergia a esses romances que se passam dentro dos
               [transatlânticos
Em alto-mar...
Como é que os seus figurantes não acabam jogando-se pelo
               [tombadilho,
Fartos de verem as caras uns dos outros?!

INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO 

Na mesma pedra sem encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce, – uma estrela,
Quando se morre, – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!”  

DETRÁS DE UM MURO SURGE A LUA 

Detrás de um muro surge a lua. Em frente
acendem-se os lampiões. A noite cai.
Na praça a banda toca de repente
Um samba histérico... Aflições, dançai!
Mas qual! Meu coração triste e indolente
Olha sem ver, de tudo se distrai...
Que pena faz uma criança doente!
Como ele está! Cada passito é um ai...
Vai morrer atacado de si mesmo,
Dos longos poentes que passou a esmo,
A embebedar-se de Cinzento e Roxo.
E enquanto a Vida corre – ó Mascarada!
Ele abre, vagamente, sobre o Nada,
O seu olhar sonâmbulo de mocho!  

ANOITECER 

Da chaminé da tua casa
Uma por uma
Vão brotando as estrelinhas...

O RIO 

A morte é um rio onde a gente
Embarca de olhos fechados
Se queres partir contente
Nada deixes deste lado.
É deste lado de cá
Que moram nossos cuidados,
Penas que amor nos deixou
São penas que o vento trouxe
São pelo vento levadas.
Fecha os olhos bem fechados
Basta de tanta rima em “ados”
Dorme o teu sono profundo
Longe, cada vez mais longe
Deste mundo e seus cuidados.  

* * *

(“A Cor do Invisível”, 2ª Edição, Editora Globo, SP, 1994)