"As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas. Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada."

Para a Paula, o Pedrinho e a Soraia
Dedicatória em "LILI INVENTA O MUNDO", Editora Mercado Aberto, 5ª Edição, Porto Alegre, 1985

MÁRIO QUINTANA nasceu em Alegrete, RS, em 30 de julho de 1906 e faleceu em Porto Alegre, RS, em 5 de maio de 1994. Durante toda a sua vida foi poeta. Seu jeito de menino matreiro acompanhou-o por todos os seus oitenta e oito anos pródigos de belas crônicas, versos, frases, pensamentos e poesias. Criou personagens - como o Anjo Malaquias - e fez-nos rir, chorar e nos emocionar. Este é o Quintana reverenciado neste Blog: o nosso anjo-menino, o nosso maior poeta.


* * *

Blog criado no dia 15 de janeiro de 2008

Fazia tempo que eu pensava em criar um blog dedicado a Mário Quintana, poeta pelo qual guardo venerável respeito e admiração. Entretanto, se recorrermos aos sites de busca na internet, encontraremos dezenas de páginas que homenageiam este personagem tão querido de todos nós, cada um com o seu jeito mas todos voltados para a transcrição de sua obra magnífica e de sua biografia inigualável. O meu seria, apenas, mais um, entre tantos e, certamente, muito modesto. Relutei muito. Hoje, dia 15 de janeiro de 2008, enfim, decidi aceitar o desafio que fiz a mim mesmo e eis aqui "SAPATOS E CATAVENTOS", com o qual presto a minha gratidão a Mário Quintana por ter vivido entre nós. Para mim não basta ler os seus poemas, suas crônicas e citações nos livros de minha biblioteca. Acho que transcrevendo-os eles permanecem mais vivos e palpitantes, dando-me a oportunidade de compartilhar com outras pessoas o prazer, a alegria e a emoção que eles transmitem. Assim, meu querido Poeta, este blog é teu. É a única coisa que posso fazer para te dizer "obrigado".

O QUE HÁ NESTE BLOG?

Neste blog encontraremos esquinas, relógios, anjos e telhados. Nele haverá escadas e degraus, canções, ruas e ruazinhas, rãs, sapos, lampiões e grilos. Muitas vezes surgirão gatos, solidão, mortos e defuntos, pássaros, livros, noites e silêncios, ventos, reticências e fantasmas. E poesia, quando o Poeta abrir a sua alma e deixar que do mais íntimo do seu ser, brote em abundância todos os sentimentos que os comuns mortais escondem ou dissimulam por medo de se mostrarem como são. Então ele falará de velhos casarões, de calçadas, janelas, armários, jardins, luar e muros floridos. O Poeta contará historias da cidade que ama, de espelhos, de quartos, bondes e sapatos. De brinquedos, barcos, arroios, cataventos e guarda-chuvas. E de seus baús resgatará os retratos das princesas e das amadas, numa ciranda infindável de doces e ternas reminiscências que nos encantam e comovem enquanto brinca com suas girândolas. E a homenagem singela de um admirador ao Poeta inigualável, sempre externando candura e encantamento enquanto nos revela em plenitude a ternura de seus poemas.

25 abril 2016

- CLXI -

APONTAMENTOS DE HISTÓRIA SOBRENATURAL

POEMA OLHANDO UM MURO 

Do
escuro do meu quarto
– imóvel como um felino, espio
a lagartixa imóvel sobre o muro: mal sabe ela
da sua graça ornamental, daquele
verde
intenso
na lividez mortal
da pedra... ah, nem sei eu também o que procuro, há tanto...
nesta minha eterna espreita!
Pertenço acaso à raça odiada dos mutantes?
Ou
sou, talvez
– em meio às espantosas aparências de algum mundo estranho –
um espião que houvesse esquecido o seu código, a sua sigla, tudo...
– menos
a gravidade da sua missão! 

O MORITURO 
    
Por que é que assim, com suas caras móveis e simiescas,
os vivos nos devassam, num cínico impudor?
Por que nos olham assim – como se fôramos cousas –
quando os nossos traços vão repousando, enfim,
na tranqüila dignidade da morte?
Por que é que eles, com a sua obscena curiosidade,
não respeitam o ato mais íntimo de nossa vida
– ato que deveria ser testemunhado apenas pelos Anjos?
Ah, que Deus me guarde na hora de minha morte, amém,
que Deus me guarde da humilhação desse espetáculo
e me livre de todos, de todos eles:
não quero os seus olhos pousando como moscas na minha cara.
Quero morrer na selva de algum país distante...
Quero morrer sozinho como um bicho! 

INSTRUMENTO

Impossível fazer um poema
neste momento.
Não, minha filha, eu não sou a música
– sou o instrumento. 

Sou, talvez, dessas máscaras ocas
num arruinado monumento:
empresto palavras loucas
à voz dispersa do vento...  

AXIOMAS

     Um ovo, um cacto, um chafariz, um anjo de túmulo, um lampião é o único que existe.  E um cavalo... ah, é verdadeiro porque é único. Um poeta é o único poeta que existe no mundo. Deus é o Deus único e verdadeiro. 

DESCOBERTAS

Descobrir Continentes é tão fácil como esbarrar com um elefante:
Poeta é o que encontra uma moedinha perdida... 

ELEGIA URBANA 

Rádios. Tevês.
Gooooooooooooooooooooooolo!!!
(O domingo é um cachorro escondido debaixo da cama) 

ESCADAS 

Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas: conturbam...
Quando as desce, a gente
Se desparafusa...
Quando a gente as sobre
Se parafusa
                  – o peito
                    estreito –
                                  o teto descendo
Descendo descendo como nas histórias de imortal horror!
Mas de que jeito,
Mas como pode ser,
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso?
Além disso não têm, pelo que dizem, nenhuma acústica...
Oh! não há como as escadarias daqueles antigos edifícios públicos
Para ser assassinado...
Porém não fiques tão eufórico,
– nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em direção ao teu quarto
E “sabes” que é um fantasma chamejante e fosfóreo
– o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes!
O melhor
Mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa...
Pensa, pensa
– o quanto antes!
Naquelas pobres escadas de madeira das casas pobres
– escurinho dos teus primeiros aconchegos...
Pensa em cascatas de risos
Escada abaixo
De crianças deixando a escola...
Pensa na escada do poema
Que tu
            comigo
                        vens descendo  
                                               agora...
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não! este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo...
Ah, tu querias que eu te embalasse?!
Eu estava, apenas, explorando uns abismos...

* * *
(“Apontamentos de História Sobrenatural” – Ed. Globo, Porto Alegre, 1977) 

26 março 2016

- CLX -

- LILI INVENTA O MUNDO - 


Canção de inverno 

“Pinhão quentinho!
Quentinho o pinhão!”
(E tu bem juntinho
Do meu coração...)       
      
Cantiguinha de verão 

Anda a roda
Desanda a roda 

E olha a lua a lua a lua! 

Cada rua tem a sua roda
E cada roda tem a sua lua

No meio da rua
Desanda a roda: Oh,

Ficou a lua
Olhando em roda... 

Triste de ser uma lua só!

Verão 

     Há sempre, afastada das outras, uma nuvenzinha preguiçosa que ficou sesteando no azul. 

Pequenos tormentos da vida 

     De cada lado da sala de aula, pelas janelas altas, o azul convida os meninos, as nuvens desenrolam-se, lentas, como quem vai inventando preguiçosamente uma história sem fim... Sem fim é a aula: e nada acontece, nada... Bocejos e moscas. Se ao menos, pensa Lili, se ao menos um avião entrasse por uma janela e saísse pela outra! 

Coisa louca 

     Eu te amo como se ama um cachorrinho verde.

Noturno arrabaleiro 

Os grilos... os grilos... Meu Deus, se a gente
Pudesse
Puxar
Por uma
Perna
Um só
Grilo,
Se desfiariam todas as estrelas!

Essa não! 

     Lili teve conhecimento dos antípodas, na escola. Logo que chegou em casa, começou a deitar sabença pra cima da cozinheira. Falou, falou, e, como visse que Sia Hortênsia não estava manjando nada, ergueu no ar o dedinho explicativo: 

    - Imagine só que quando aqui é meio-dia lá na China é meia-noite! 

    - Credo! Eu é que não morava numa terra assim... 

    - Mas por que, Sia Hortênsia? 

    - Uma terra onde o dia é de noite... Cruzes! 

Dupla delicia 

    O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

Os sonhos das lagartas 

    As lagartas não podem acreditar na lenda das borboletas – tão antiga entre o seu rastejante e esforçado povo... mas sua felicidade consiste em relembrar, às vezes, o absurdo e maravilha desse velho sonho: o de se transformarem, um dia, em borboletas.

Camuflagem 

    A esperança é um urubu pintado de verde. 

Botânica 

    A verdadeira couve-flor é a hortência. 

Canção da primavera 

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando. 

Catavento enlouqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando. 

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo... 

Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido! 

* * * 

("Lili inventa o mundo", Ed. Mercado Aberto, Porto Alegre, 5ª Edição, 1985) 

24 março 2016

- CLIX -

- SAPATO FLORIDO - 

TRÁGICO ACIDENTE DE LEITURA 

       Tão cômodamente que eu estava lendo, como quem viaja num raio de lua, num tapête mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÔNDITO. Que momento passei!... O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se posta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano prêto, como um duplo monstro misterioso e corcunda... O terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: fogo! 

EXEGESE 

     - Mas que quer dizer êsse poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.

    - E que quer dizer uma nuvem? - retruquei triunfante. 

    - Uma nuvem? - diz ela. - Uma nuvem umas vêzes quer dizer chuva, outras vêzes bom tempo... 

PERVERSIDADE 

    Alarmar senhoras gordas é um dos maiores encantos desta e da outra vida. 

FATALIDADE 

    Em todos os velórios há sempre uma senhora gorda que, em determinado momento, suspira e diz: 

    - Coitado! Descansou... 

QUIEN SUPIERA ESCRIBIR! 

    O menino de joelhos sujos que chega em casa correndo e mal pode falar... 

    A velha dama que é agora obrigada a fazer renda para vender... de casa em casa, a coitada!... e que senta na ponta da cadeira, suspira discretamente e murmura: “A minha vida é um romance...” 

    Aquela moça que diz: “Não quero ouvir isto!” e tapa os olhos... 

    Ah, quanta coisa deliciosamente quotidiana, quanto efêmero instante, eu não gravaria para sempre na memória dos homens, se... 

DA DÚVIDA 

    Felizmente parece que o Além não resolve coisa alguma, e a confusão continua a mesma, senão maior... Posso, pois, morrer descansado e levar os meus probleminhas comigo, que não me faltará distração. Não me refiro à quadratura do círculo, que pouco se me dá, nem ao moto contínuo. Penso é nas mil e uma perplexidades da minha condição de escriba, nesses cruciantes imponderáveis, no eterno problema da subjetividade do pronome se...  

DO TEMPO 

    Nunca se deve consultar o relógio perto de um defunto. É uma falta de tato, meu caro senhor... uma crueldade... uma imperdoável indelicadeza... 

INTERCÂMBIO

    Vovô tem um riso de cobre – surdo, velho, azinhavrado – um riso que sai custoso, aos vinténs. 

    Mas Lili, sempre generosa, lhe dá o trôco em pratinhas novas. 

A PRINCESA

    Quando lhe perguntaram o nome, Lili espantou-se muito: 

    - Ué! Mas todo o mundo sabe... 

O CACHORRO 

    Do quarto próximo, chega a voz irritada da arrumadeira: 

    - Meu Deus! a gente mal estende a cama e já vem êsse cachorro deitar em cima! Salta daí pra fora! 

    E Lili, muito formalizada: 

    - Finoca! o “cachorro” tem nome! 

DA HUMILDE VERDADE 

    O quotidiano é o incógnito do mistério.

MUDANÇA DE TEMPERATURA 

    Nos fios telegráficos pousaram uma, duas, três, quatro andorinhas.

    Olham de um lado e outro... Irão partir? 

    Sôbre as cêrcas rasas do arrabalde, os girassóis espiam como girafas... 

* * *

“Sapato Florido” – Editora Globo, Porto Alegre, 1948

19 fevereiro 2016

– CLVIII –

- NA VOLTA DA ESQUINA - 

Um epitáfio para Catulo da Paixão Cearense
    Catulo não morreu: luarizou-se...
Compensações
    Já repararam? A má reputação sempre faz parte da fama...
Anjo
    Ser celestial metediço na vida terrena, uma espécie de  Relações-Públicas de Nosso Senhor.
Guerra
    Método Prático de Geografia.
Morte
    Nada de maior; simples passagem de um estado para outro – assim como quem se muda do estado do Rio Grande do Sul para o estado de Santa Catarina...
Pobres
    Espetáculo predileto dos ricos.
Ricos
    Espetáculo predileto dos pobres.
O poeta e a menina
    Hoje ganhei o meu dia. Porque uma meninazinha me perguntou: “O senhor pode me botar uma dedicação neste livro?” Escrevi, então, sinceramente: “Para a Heloísa Maria, com toda a minha dedicação”. E assinei. E datei, com tristeza.  
A data
    Sim, o mais triste das dedicatórias são as datas.
Meditação para o dia de Natal
    Ah! Aquela confiança que tem uma criança rezando... Inocente confiança. Alegria. Quem é de nós que reza com alegria? Parece que só existe mesmo o Deus das crianças... Deus é impróprio para adultos.
Policiais
    Dashiell Hashmett dizem que é o inspirador do que hoje consideram a nova linha do romance policial. Nova? Nick Carter (lembram-se?) já resolvia tudo a soco. Grande coisa! Assim, até eu e tu, leitor, se tivéssemos força... O detetive ideal, para mim, é o que tem uma poltrona. O detetive dedutivo. Até o próprio Sherlock foi às vezes infiel a si mesmo, com grande consternação de todos nós.
    Outra interferência indébita, na pureza do gênero, são as mulheres, As mulheres enchem as escadarias de gritos. As mulheres, nas ocasiões menos  adequadas, histerizam o grave desenrolar da ação, esquecidas de que o silêncio é o grande fator do suspense. Isto quando não se metem a criar um caso sentimental com alguns personagens ou com o próprio detetive. Neste caso, se o detetive for mesmo o tal, deve convencê-las de que são personagens perdidas de algum outro livro, de um outro gênero e para outros leitores.
Nobreza
    Escreveu Buffon que o cavalo é um nobre animal. Bobagem... Nobre animal é o poeta!
A grande surpresa
    Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo...
* * *

(“Na Volta da Esquina” – Ed. Globo, 1979)

26 janeiro 2016

- CLVII -

- SAPO AMARELO - 

CALÇADA DE VERÃO

Quando o tempo está seco, os sapatos ficam tão contentes que se põem a cantar.

LIBERTAÇÃO 

Não há maior euforia, numa orquestra, como a dos pratos – tlin! tlin! tlan!!! – quando se vingam, enfim, do seu longo, do seu forçado silêncio.

DONA GLORINHA NO CIRCO 

Dona Glorinha estava que não podia! Aquele homem que rodava no espaço, cada vez mais rápido, e preso apenas pelos dentes a uma roldana... Dona Glorinha sentia doerem-lhe os dentes, não os de agora, os outros... Dona Glorinha não pôde mais. E bradou, em meio do suspense geral: “Basta, cruel!”

GENOVEVAS E SERAFINAS 

Um ser humano só é ele mesmo enquanto os pais ainda estão discutindo um nome para o batizar. Até então, é anônimo como um animalzinho sem dono, simples filho da Natureza e de mais ninguém. Sem laços de parentesco e outras contingências sociais. E depois, está correndo o risco de lhe darem um desses horrendos nomes tradicionais de família.

Na minha, felizmente, deixaram de aparecer, desde a penúltima geração, as Serafinas e Genovevas. A boa, a querida vovó Genoveva! O seu único defeito era ser tão antieufônica... Como seria possível a um namorado suspirar um nome desses?! 

UM DIÁRIO INTIMO DO FIM DO SÉCULO TRINTA 

Tenho 9 anos. Meu nome é Gravilo. Meu professor só hoje me permitiu uma ida ao Jardim Botânico, por causa da minha redação sobre a fórmula de Einstein. Elogiou em aula o meu trabalho porque, disse ele, em vez de dar-lhe uma interpretação, como fazem todas as crianças, eu me limitei a dizer que aquela simples fórmula era uma coisa tão absurda e maravilhosa e inacreditável como as lendas pré-históricas, por exemplo a Lâmpada de Aladino ou a Vida de Napoleão e seu Cavalo Branco. Por isso começo hoje o meu diário, que eu devia ter começado aos 7 anos. Mas nessa idade a gente só escreve coisas assim: “A Adalgiza caminha como um saca-rolha” ou “pusemos na Inspetora Geral do Ensino o apelido de Dona Programática”. Pois lá me fui com outros meninos e meninas que também tenham merecido menção pública, ao Jardim Botânico, que me pareceu pequeno porque constava apenas de uma cúpula de vidro. Havia uma fila enorme de turistas e visitantes domingueiros. Lá dentro não era apenas ar condicionado, era um vento leve, uma “brisa”, explicou-nos o professor. Uma brisa que agitava os cabelos da gente e as folhas da árvore. Sim, porque lá dentro só havia uma árvore, a única árvore do mundo e que se chamava simplesmente “a árvore”, pois não havia razão para a diferençar de outras. Suas folhas agitavam-se e tinham um cheiro verde. Não sei se me explico bem. Não importa: este diário é secreto e será queimado publicamente com outros, de autoria dos meninos da minha idade, quando atingirmos os 13 anos. Dona Programática nos explicou a necessidade desses diários porque, “para higiene da alma e preservação do individuo, todos têm direito a uma vida secreta, ao contrário do que acontecia nos tempos da Inquisição, da Censura, dos sucessores do Dr. Sigmund Freud e dos entrevistadores jornalísticos”.

Isto diz a Dona Programática. Mas o nosso professor de Redação, que não é tão cheio de coisas, diz que estes nossos diários secretos servem para a gente dizer besteiras só por escrito em vez de as dizer em voz alta.

Na próxima vez tratarei de fazer uma boa redação sobre a Árvore para ver se ganho o prêmio de uma visita ao Zôo – onde está o Cavalo. Andei indagando dos grandes sobre este novo cavalo e me disseram que não, que ele não era branco. Uma pena...

MADRIGAL 

As velhinhas bonitas são passas de uva. Havia, não me lembro agora se no País das Maravilhas, da Alice, ou se na Cidade de Oz, uma velha que morava num sapato... E nós que moramos em caixas de sapatos!

* * *

("Sapo Amarelo" – 5ª Edição, Editora Global, São Paulo, SP, 2006)

23 dezembro 2015

– CLVI –


- BAÚ DE ESPANTOS - 

ANTI-CANÇÃO NÚMERO UM 

Passam as belas na passarela:
é tudo pura ventarolagem, vês?
Mas o pensamento traça no ar
isentas elaborações geométricas...
Poeta, é preciso escolher
entre o sopro e a construção.
E, no espaço liberto – liberto do tempo –
assenta, pedra a pedra, a tua pirâmide:
o resto é canção... Canção é feita de vento.
Do vento que faz o tempo, lento devorador de pirâmides...
Mas só se pode construir cantando! E então?
Passam as belas na passarela.
Cantam as belas na passarela,
com seus vestidos da cor do tempo!

NOTURNO DA VIAÇÃO FÉRREA 

Ora, os fantasmas são viajantes noturnos.
Se aboletam nos carros vazios e ficam
(por que será que os fantasmas não fumam?)
a olhar o mundo que desliza...
Mas sucede que as máquinas estavam manobrando apenas
E depois veio a luz crescente, a luz cruel,
Situando e ambientando as coisas.
E quando surgem, cabalísticos, os primeiros letreiros:
Hotel Savóia, Ao Pente de Ouro, Saúde da Mulher,
os fantasmas, poídos de claridade,
soltam um suspiro e se desvanecem.

QUERIAS QUE EU FALASSE DE “POESIA” 

Querias que eu falasse de “poesia” um pouco
mais... e desprezasse o quotidiano atroz...
querias... era ouvir o som da minha voz
e não um eco – apenas – deste mundo louco!

Mas quê te dar, pobre criança, em troco
de tudo que esperavas, ai de nós:
é que eu sou oco... oco... oco...
como o Homem de Lata do “Mágico de Oz”!

Tu o lembras, bem sei... ah! o seu horror
imenso às lágrimas... Porque decerto se enferrujaria...
E tu... Como um lírio do pântano tu me querias,

como uma chuva de ouro a te cobrir devagarinho,
um pássaro de luz... Mas haverá maior poesia
do que este meu desesperar-me eterno da poesia?!

PARECE UM SONHO 

“Parece um sonho que ela tenha morrido!”
diziam todos... Sua viva imagem
tinha carne!... E ouvia-se, na aragem,
passar o frêmito do seu vestido...

E era como se ela houvesse partido
e logo fosse regressar da viagem...
– até que em nosso coração dorido
a Dor cravava o seu punhal selvagem!

Mas tua imagem, nosso amor, é agora
menos dos olhos, mais do coração.
Nossa saudade te sorri: não chora...

Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.
E ao relembrar-te a gente diz, então:
“Parece um sonho que ela tenha vivido!”

                1953

MANHà

Esta noite eu sonhei que era Jackie Coogan.
Me acordei
– Bom dia, Senhor Sol, quanta luz! –
Todo iluminado por dentro de alegria.
Na janela,
A fresca manhã sirria!
(Os coqueirais crespos cutucavam ela...)

            (1926)

FAMÍLIA DESENCONTRADA 

                                                         Para Liana Pereira Milanez

O Verão é um senhor gordo, sentado na varanda,
       suando em bicas e reclamando cerveja.

O Outono é um tio solteirão que mora lá em cima no
       sótão e a toda hora protesta aos gritos: “Que
       barulho é esse na escada?!”

O Inverno é o vovozinho trêmulo, com a boina enterrada
       até os olhos, a manta enrolada nos queixos e
       sempre resmungando: “Eu não passo deste agosto,
       eu não passo deste agosto...”

A Primavera, em contrapartida
       – é ela quem salva a honra da família! –
       é uma menininha pulando na corda cabelos ao vento
       pulando e cantando debaixo da chuva
       curtindo o frescor da chuva que desce do céu
       o cheiro de terra que sobe do chão
       o tapa do vento na cara molhada!

Oh! a alegria do vento desgrenhando as árvores
revirando os pobres guarda-chuvas
erguendo saias!
A alegria da chuva a cantar nas vidraças
sob as vaias do vento... 

       Enquanto
– desafiando o vento, a chuva, desafiando tudo –
       no meio da praça a menininha canta
          a alegria da vida
          a alegria da vida!

* * *


(“Baú de Espantos”, 4ª Edição, Editora Globo, RJ,1988) 

20 novembro 2015

- CLV -


 - DIÁRIO POÉTICO '87 -


Preferências 
(1 de fevereiro - Dom) 

Meninos, amem os cães,
E gatos, as menininhas.
E esses gatos que elas amam
São os gatos das gatinhas.  


Festa de Nossa Senhora dos Navegantes 
(2 de fevereiro - Seg) 

Uma, a Rainha do Céu, 
Outra, a Rainha das Águas, 
Nas águas mansas do rio 
Vão levando as nossas mágoas... 


********** 
(3 de fevereiro - Ter) 

O vento gosta é de cantar...
Quem me faz uma letra para a canção do vento? 


********** 
(4 de fevereiro - Qua) 

E o que mais enfurece o vento são esses poetas inveterados que o fazem rimar com “lamento”. 


Interrogações 
(5 de fevereiro - Qui) 

Nenhuma pergunta demanda resposta.
Cada verso é uma pergunta do poeta.
E as estrelas... as flores... o mundo
São perguntas de Deus. 


(6 de fevereiro - Sex) 

Senhor, que buscas Tu pescar com a rede das estrelas? 


Responsabilidade 
(7 e 8 de fevereiro - Sab/Dom) 

Nós somos gestantes da alma... Cuidado!
É preciso muito, muito cuidado
Para que a alma possa nascer normal em outra vida. 


Autobiografia 
(9 de fevereiro - Seg)

Entre o olhar suspeitoso da tia
E o olhar confiante do cão
O menino inventava a poesia... 


Meticulosidade 
(10 de fevereiro - Ter) 

Os velhos, quanto mais velhos, mais vírgulas usam. 


***** 
(11 de fevereiro - Qua) 

Vagas notas esparsas... Leitores há que gostam disso. E até desconfio que, para alguns desses leitores de que tanto gosto, os livros deveriam ser compostos apenas de entrelinhas... 


Orquestra 
(12 de fevereiro - Qui) 

Há poetas que fazem música de câmera: Verlaine, Laforgue, para apenas citar gente minha. Victor Hugo era outra coisa... Victor Hugo era o General da Banda! 


As nuvens e os sonhos 
(13 de fevereiro - Sex) 

Ah, essas esculturas de gaze do vento, sempre errantes entre o Céu e a Terra... como os sonhos dos homens. 


As velhas anedotas 
(14 e 15 de fevereiro - Sab/Dom) 

O grande consolo das velhas anedotas são os recém nascidos...

Três coisas
(16 de fevereiro – Seg)

Todas as antigas civilizações, por mais afastadas umas das outras, no tempo e no espaço – sempre começaram descobrindo três coisas: a poesia, a bebida e a religião.

Sangue e areia
(17 de fevereiro – Ter)

O mais revoltante nas touradas é que os touros não são aplaudidos quando saem vencedores.

Do manual do perfeito cavalheiro 
(18 de fevereiro – Qua)

Cuidado! Deves tocar a campainha tão suavemente como se apertasses o umbigo da dona da casa.

Hein?
(19 de fevereiro – Qui)

Quando um acidentado acorda, perplexo, no Outro Mundo, e indaga dos Anjos que horas são, muito mais perplexos ficam os Anjos.

Mau Humor
(20 de fevereiro – Sex)

Quem mete uma bala na cabeça retira-se da vida batendo com a porta.

A noite misteriosa
(21 e 22 de fevereiro – Sab/Dom)

A noite é uma enorme Esfinge de granito negro, lá fora... 

Passeio
(23 de fevereiro – Seg)

Oh! Não há nada como um pé depois do outro... 

O visitante matinal
(24 de fevereiro – Ter)

Para que nomes? Era azul e voava...

O visitante noturno
(25 de fevereiro – Qua)

Aparecia sempre nos pesadelos: o seu silêncio era aterrorizante!

Hai-kai da cozinheira
(26 de fevereiro – Qui)

A cozinheira preta preta
Preta e gorda
Com seu claro sorriso de lua... 

Fogão
(27 de fevereiro – Sex)

Cada brasa palpita como um coração.

Por quê
(28 de fevereiro – Sab)

Até agora ninguém explicou porque Fevereiro – o mais curto dos meses – sempre nos parece que custou tanto a passar...

* * *

Diário Poético 87 / Mario Quintana – Porto Alegre; Rio de Janeiro: Globo, 1986