"As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas. Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada."

Para a Paula, o Pedrinho e a Soraia
Dedicatória em "LILI INVENTA O MUNDO", Editora Mercado Aberto, 5ª Edição, Porto Alegre, 1985

MÁRIO QUINTANA.
MENINO, ANJO, POETA.

Fazia tempo que eu pensava em fazer um blog dedicado a Mário Quintana, poeta pelo qual guardo venerável respeito e admiração. Entretanto, se recorrermos aos sites de busca na internet, encontraremos dezenas de páginas que homenageiam este personagem tão querido de todos nós, cada um com o seu jeito mas todos voltados para a transcrição de sua obra magnífica e de sua biografia inigualável. O meu seria, apenas, mais um, entre tantos e, certamente, muito modesto. Relutei muito. Hoje, dia 15 de janeiro de 2008, enfim, decidi aceitar o desafio que fiz a mim mesmo e eis aqui "SAPATOS E CATAVENTOS", com o qual presto a minha gratidão a Mário Quintana por ter vivido entre nós. Para mim não basta ler os seus poemas, suas crônicas e citações nos livros de minha biblioteca. Acho que transcrevendo-os eles permanecem mais vivos e palpitantes, dando-me a oportunidade de compartilhar com outras pessoas o prazer, a alegria e a emoção que eles transmitem. Assim, meu querido Poeta, este blog é teu. É a única coisa que posso fazer para te dizer "obrigado".


Neste blog encontraremos esquinas, relógios, anjos e telha- dos. Nele haverá escadas e degraus, canções, ruas e ruazinhas, rãs, sapos, lampiões e grilos. Muitas vezes surgirão gatos, solidão, mortos e defuntos, pássaros, livros, noites e silêncios, ventos e fantasmas. E poesia, quando o Poeta abrir a sua alma e deixar que do mais íntimo do seu ser, brote em abundância todos os sentimentos que os comuns mortais escondem ou dissimulam por medo de se mostrarem como são. Então ele falará de velhos casarões, de telhados, calçadas, janelas, armários, jardins, luar e muros floridos. O Poeta contará historias da cidade que ama, de espelhos, de quartos, bondes e sapatos. De brinquedos, barcos, arroios, cataventos e guarda-chuvas. E de seus baús resgatará retratos de princesas e amadas, numa ciranda infindável de doces e ternas reminiscências que nos encantam e comovem. É a homenagem singela de um admirador ao Poeta que sempre o encantou pela ternura de seus poemas.



09/02/10

- LXXX -


DAS METAMORFOSES

A lua, quando fica velha, todo o mundo sabe que vira lua nova.

Mas negro velho vira macaco. Desses macaquinhos de realejo... Cuidado! Quanto mais velhos mais vivos. Sabem tudo. Descobrem tudo. Se tens algum pecado oculto, foge das suas caretas falsamente amigas, dos seus olhinhos espertos e cínicos!

E os velhos jurisconsultos viram fetos...esses fetos que a gente olha, meio desconfiado, nos bocais de vidro... e que, no silêncio dos laboratórios, oscilando gravemente as cabeças fenomenais, elucubram anteprojetos, orações de paraninfo, reformas da Constituição... Sempre que puderes, crava um punhal, um garfo, um prego, no miolo mole dos fetos.

Em compensação, as velhinhas que fazem renda viram fio... Fio, sim senhor! Esses fios que vagam soltos no ar... que ninguém sabe de onde vêm... e se prendem num galho morto... no chapéu do viajante solitário... no freio do seu cavalo... que se prendem, desesperadamente, num lábio fresco, numa trança ao vento...

E os velhos que mal podem acender os cigarros, os pobres velhinhos trêmulos viram reflexos... Esses reflexos que dançam no ar... que nascem no ar... De uma vidraça... de um pára-brisa... do galo do pára-raio que volteou de súbito... de folhas que se assustam... de mariposas tontejando... de uma ronda infantil sob a lua redonda...

OS VIRA-LATAS

Todos lhes dão, com uma disfarçada ternura, o nome, tão apropriado, de vira-latas. Mas e os vira-luas? Ah! Ninguém se lembra desses outros vagabundos noturnos, que vivem farejando a lua, fuçando a lua, insaciavelmente, para aplacar uma outra fome, uma outra miséria, que não é a do corpo...

MOMENTO

O homem parou, cheio de dedos, para procurar os fósforos nos bolsos. A insidiosa frescura do mar lhe mandou um pensamento suicida. E veio um riso límpido e irresistível – em i, em a, em o – do fundo de um pátio da infância. Um riso... Senão quando o homem achou os fósforos e a vida recomeçou. Apressada, implacável, urgente. A vida é cheia de pacotes...

O BAR

O doloroso sulco lábio-nasal junto à garrafa morta...

O ESTRANHO CASO DE MÍSTER WONG

Além do controlado Dr. Jekyll e do desrecalcado Míster Hyde, há também um chinês dentro de nós: Míster Wong. Nem bom, nem mau: gratuito. Entremos, por exemplo, neste teatro. Tomemos este camarote. Pois bem, enquanto o Dr. Jekyll, muito compenetrado, é todo ouvidos, e Míster Hyde arrisca um olho e a alma no decote da senhora vizinha, o nosso Míster Wong, descansadamente, põe-se a contar carecas na platéia...

Outros exemplos? Procure-os o senhor em si mesmo, agora mesmo. Não perca tempo. Cultive o seu Míster Wong.

CHÃO DE OUTONO

Ao longo das pedras irregulares do calçamento passam ventando umas pobres folhas amarelas em pânico, perseguidas de perto por um convite-de-enterro, sinistro, tatalando, aos pulos, cada vez mais perto, as duas asas tarjadas de negro!

A VINGANÇA

Se eu fosse Deus, em mandava os comendadores mortos (ah, como nos havíamos de rir, ó Walt Disney!) eu os mandava a todos, com as suas almas graves, encasacadas e de óculos, para o doido País das Sinfonias Coloridas.

PROVÉRBIO

O seguro morreu de guarda-chuva.

HORROR

Com os seus OO de espanto, seus RR guturais, seu hirto H, HORROR é uma palavra de cabelos em pé, assustada da própria significação.

ARTE DE FUMAR

Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar...

Sapato Florido” – Editora Globo, Porto Alegre, 1948

Ilustração: Da Capa da 1ª Edição de "Sapato Florido"

06/02/10

- LXXIX -


PINO

Doze touros

Arrastam a pedra terrível.

Doze touros.

Os músculos vibram

Como cordas.

Nenhuma rosa

Nos cornos sonoros.

Nenhuma.

Nas torres que ficam acima das nuvens

Exausto de azul

Boceja o Rei de Ouros.

O DIA

O dia de lábios escorrendo luz

O dia está na metade da laranja

O dia sentado nu

Nem sente os pesados besouros

Nem repara que espécie de ser... ou deus... ou animal

é esse que passa no frêmito da hora

Espiando o brotar dos seios.

DE REPENTE

Olho-te espantado:

Tu és uma Estrela do Mar.

Um minério estranho.

Não sei...

No entanto,

O livro que eu lesse,

O livro na mão.

Era sempre o teu seio!

Tu estavas no morno da grama,

Na polpa saborosa do pão...

Mas agora encheram-se de sombra os cântaros

E só o meu cavalo pasta na solidão.

MUNDO

E eis que naquele dia a folhinha marcava uma data em caracteres desconhecidos,

Uma data ilegível e maravilhosa.

Quem viria bater à minha porta?

Ai, agora era um outro dançar, outros os sonhos e incertezas,

Outro amar sob estranhos zodíacos...

Outro...

E o terror de construir mitologias novas!

JAZZ

Deixa subirem os sons agudos, os sons estrídulos do jazz no ar.

Deixa subirem: são repuxos: caem...

Apenas ficarão os arroios correndo sem rumor dentro da noite.

E junto a cada arroio, nos campos ermos,

Um Anjo de Pedra estará postado.

O Anjo de Pedra que está sempre imóvel por detrás de todas as coisas -

Em meio aos salões de baile, entre o fragor das batalhas,

nos comícios das praças públicas –

E em cujos olhos sem pupilas, brancos e parados,

Nada no mundo se reflete.

O POEMA

Um poema como um gole d’água bebido no escuro.

Como um pobre animal palpitando ferido.

Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.

Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.

Triste.

Solitário.

Único.

Ferido de mortal beleza.

FLORESTA

Dédalo de dedos.

Lanterninhas súbitas.

Escutam as orelhas-de-pau. Ssssio...

O gigante deitado

Se virou pro outro lado.

A velha Carabô

Parou de pentear os cabelos.

E o Vencido... são as duas mãos e a cabeça do Vencido que se arrastam.

Que se arrastam penosamente para o poço da Lua,

Para o frescor da Lua, para o leite da Lua, para a lua da Lua!

(Filha, onde teria ficado o resto do corpo?)

CASAS

Para Cecília Meireles

A casa de Herédia, com grandes sonetos dependurados como panóplias

E escadarias de terceiro ato,

A casa de Rimbaud, com portas súbitas e enganosos

corredores, casa-diligência-navio-aeronave-pano

onde só não se perdem os sonâmbulos e os copos de dados,

A casa de Apollinaire, cheia de reis de França e

valetes e damas dos quatro naipes e onde a

gente quebra admiráveis vasos barrocos correndo

atrás de pastorinhas do século XVIII,

A casa de William Blake, onde é perigoso a gente entrar,

Porque pode nunca mais sair de lá,

A casa de Cecília, que fica sempre noutra parte...

E a casa de João-José, que fica no fundo de um

poço, e que não é propriamente casa, mas uma

sala-de-espera no fundo do poço.

* * *

O Aprendiz de Feiticeiro” – Editora Globo, SP – 2ª Edição 2005, 5ª Reimpressão, 2008

Crédito: Ilustração obtida no site “COLORIR DESENHOS

- Editei, redimensionei e colori (Evandro) -

- LXXVIII -

O BATALHÃO DAS LETRAS
Ilustrações de Eva Furnari


Aqui vão todas as letras,

Desde o A até o Z,

Pra você fazer com elas

O que esperam de você...

Aí vem o Batalhão das Letras

E, na frente, a comandá-lo,

O A, de pernas abertas,

Montado no seu cavalo.

Com um B se escreve BALÃO,

Com um B se escreve BEBÊ,

Com um B os menininhos

Jogam BOLA e BILBOQUÊ.

Com C se escreve CACHORRO,

Confidente das CRIANÇAS

E que sabe seus amores,

Suas queixas e esperanças...

Com um D se escreve DEDO,

Que poderá ser mau ou sábio,

Desde o dedo acusador

Ao D do dedo no lábio...

O E da nossa ESPERANÇA

Que é também o nosso ESCUDO

É o mesmo E das ESCOLAS

Onde se aprende de tudo.

Com F se escreve FUGA,

FRADES, FLORES e FORMIGAS

E as crianças malcriadas

Com F é que fazem FIGAS.

O G é letra importante,

Como assim logo se vê:

Com um G se escreve GLOBO

E o globo GIRA com G.

Com H se escreve HOJE

Mas “ontem” não tem H...

Pois o que importa na vida

É o dia que virá!


O I é a letra do ÍNDIO,

Que alguns julgam ILETRADO...

Mas o índio é mais sabido

Que muito doutor formado!

Com J se escreve JULIETA,

Com J se escreve JOSÉ:

Um joga na borboleta,

O outro no jacaré.

O K parece uma letra

Que sozinha vai andando,

Lembra estradas, andarilhos

E passarinhos em bando...

O L lembra o doce LAR,

Lembra um casal à LAREIRA!

O L lembra LAZER

Da doce vida solteira...

Com M se escreve MÃO.

E agora vê que engraçado:

Na palma da tua mão

Tens um M desenhado!

N é a letra dos teimosos,

Da gente sem coração:

Com N se escreve – NUNCA!

Com N se escreve – NÃO!

Outras letras dizem tudo.

Mas o O nos desconcerta.

Parece meio abobalhado:

Sempre está de boca aberta...

Quem diz que ama a POESIA

E não a sabe fazer

É apenas um POETA inédito

Que se esqueceu de escrever...

Esse Q das QUEIJADINHAS,

Dos bons QUITUTES de QUIABO

Era um O tão mentiroso

Que um dia criou rabo!


Os RATOS morrem de RISO

Ao roer o queijo prato.

Mas para que tanto riso?

Quem ri por último é o gato.

Acheguem-se com cuidado,

De olho aceso, minha gente:

O S tem forma de cobra,

Com ele se escreve SERPENTE.

É o T das TRANÇAS compridas,

Boas da gente puxar;

Jeito bom de namorar

As menininhas queridas...

O U é a letra do luto!

O U do URUBU pousado

Nas negras noites sem lua

Num palanque do banhado...

Este V é o V de VIAGEM

E do VENTO vagabundo

Que sem pagar a passagem

Corre todo o vasto mundo.

Era uma vez um M poeta

Que um dia, em busca de uma rima,

Caiu de pernas pra cima

E virou um belo dábliu!

Coisa assim nunca se viu,

Mas é a história verdadeira

De como o dábliu surgiu...

Com um X se escreve XÍCARA,

Com X se escreve XIXI.

Não faças xixi na xícara...

O que irão dizer de ti?!

Ypsilon – letra dos diabos,

Que engasga o mais sabichão!

Por isso o povo e as crianças

A chamam de “pissilão”...

O Ze é a letra de ZEBRA,

E letras das mais infames.

Com um Z os menininhos

Levam ZERO nos exames.

E todas as vinte e seis letras

Que aprendeste num segundo

São vinte e seis estrelinhas

Brilhando no céu do mundo!

* * *

O Batalhão das Letras”, Editora Globo, SP, 2ª Edição 1992, 16ª Reimpressão, 2008

Ilustrações de Eva Furnari



03/02/10

- LXXVII -


EU FAÇO VERSOS COMO OS SALTIMBANCOS

Eu faço versos como os saltimbancos

Desconjuntam os ossos doloridos.

A entrada é livre para os conhecidos...

Sentai, Amadas, nos primeiros bancos!

Vão começar as convulsões e arrancos

Sobre os velhos tapetes estendidos...

Olhai o coração que entre gemidos

Giro na ponta dos meus dedos brancos!

“Meu Deus! Mas tu não mudas o programa!”

Protesta a clara voz das Bem-Amadas.

“Que tédio!” o coro dos Amigos clama.

“Mas que vos dar de novo e de imprevisto?”

Digo... e retorço as pobres mãos cansadas:

“Eu sei chorar... Eu sei sofrer... Só isto!”

PARA ANTÔNIO NOBRE

Contigo fiz, ainda em menininho,

Todo o meu Curso d’Alma... E desde cedo

Aprendi a sofrer devagarinho,

A guardar meu amor como um segredo...

Nas minhas chagas vinhas pôr o dedo

E eu era o Triste, o Doido, o Pobrezinho!

Amava, à noite, as Luas de bruxedo,

Chamava o Pôr-de-Sol de Meu Padrinho...

Anto querido, esse teu livro “SÓ”

Encheu de luar a minha infância triste!

E ninguém mais há de ficar tão só:

Sofreste a nossa dor, como Jesus...

E nesta Costa d’África surgiste

Para ajudar-nos a levar a Cruz!...

ESSES INQUIETOS VENTOS ANDARILHOS

Para F. Soares Coelho

Esses inquietos ventos andarilhos

Passam e dizem: “Vamos caminhar.

Nós conhecemos misteriosos trilhos,

Bosques antigos onde é bom cismar...

E há tantas virgens a sonhar idílios!

E tu não vieste, sob a paz lunar,

Beijar os teus entrefechados cílios

E as dolorosas bocas a ofegar...”

Os ventos vêm e batem-me à janela:

“A tua vida, que fizeste dela?”

E chega a morte: “Anda! Vem dormir...

Faz tanto frio... E é tão macia a cama...”

Mas toda a longa noite inda hei de ouvir

A inquieta voz dos ventos que me chama!...

MINHA MORTE NASCEU QUANDO EU NASCI

Para Moysés Vellinho

Minha morte nasceu quando eu nasci.

Despertou, balbuciou, cresceu comigo...

E dançamos de roda ao luar amigo

Na pequenina rua em que vivi.

Já não tem mais aquele jeito antigo

De rir e que, ai de mim, também perdi!

Mas inda agora a estou sentindo aqui,

Grave e boa, a escutar o que lhe digo:

Tu que és a minha doce Prometida,

Nem sei quando serão as nossas bodas,

Se hoje mesmo... ou no fim de longa vida...

E as horas lá se vão, loucas ou tristes...

Mas é tão bom, em meio às horas todas,

Pensar em ti... saber que tu existes!

* * *

A Rua dos Cataventos” – Editora da Universidade Federal RS, Porto Alegre, RS, 1992

* * *

Ilustração – A foto original pertence ao site "PAPO DE BOTEQUIM". A que está publicada, acima, foi escaneada, editada e redimensionada por mim.

Evandro

19/01/10

- LXXVI -

O VELHO DO ESPELHO




Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse
Que me olha e é tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto... é cada vez menos estranho...
Meu Deus, meu Deus... Parece
Meu velho pai – que já morreu!
Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar – duro – interroga:
"O que fizeste de mim?!"
Eu, Pai? Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga... Que importa?! Eu sou, ainda,
Aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mas sei que vi, um dia – a longa, a inútil guerra! –
Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste...

("Apontamentos de História Sobrenatural", Editora Globo, 2ª Edição, Porto Alegre, 1977)

Ilustrações: Autoria de Clara Pechansky, 1984 – Pertencem ao site do Governo do Estado do Rio Grande do Sul

- LXXV -


INVENTOS

Depois que fez a máquina dos mundos, Nosso Senhor espantou-se muito: "Ué! Será que eu consegui descobrir o moto-contínuo?"

PRESSA & CONTEMPLAÇÃO

Li há tempos que num desses exóticos países do Oriente... O adjetivo "exótico" explica que a coisa se passou em fins do século passado. Pois aconteceu que no referido país um engenheiro inglês queria convencer o respectivo xá, ou qualquer título que tivesse, que, em nome do progresso, era urgente a construção de uma estrada de ferro. E findou assim seu arrazoado:

A estrada de ferro fará com que, em vez de trinta dias a lombo de camelo, a viagem da capital à fronteira seja apenas de um dia.

- Mas – objetou o soberano – o que é que vamos fazer dos vinte e nove dias que sobram?

É o único exemplo que conheço da propalada sabedoria oriental. O que tem feito o Oriente, de Pedro o Grande a Mao Tsé Tung, é macaquear o Ocidente, na indumentária, nos costumes, nos processos políticos, contribuindo assim, como colaboracionistas para o imperialismo ocidental.

ESSA NÃO!

Lili teve conhecimento dos antípodas, na escola. Logo que chegou em casa, começou a deitar sabença pra cima da cozinheira. Falou, falou, e, como visse que Sia Hortência não estava manjando nada, ergueu no ar seu dedinho explicativo:

- Imagine só que quando aqui é meio-dia lá na China é meia-noite!

-Credo! Eu é que não morava numa terra assim...

- Mas por que, Sia Hortência?

- Uma terra onde o dia é de noite... Cruzes!

MÁGICA & MISTÉRIO

Há espíritos simplistas, que acham que tem de haver uma explicação para tudo.

E que, explicada a coisa, foi-se o mistério!

Principalmente esses que insistem em desmontar os poemas, como se quisessem desmascarar o poeta.

Eles me fazem lembrar aquelas pessoas "espertas" de certa cidadezinha do interior, as quais, indo assistir à função de um mágico, puseram-se a bradar no meio do espetáculo:

"Isso é truque! Não pega! É truque! É truque!"

Mas, para alívio das almas compassivas, acrescento que o pobre mágico sempre conseguiu escapar com vida por trás dos bastidores...

O VIAJANTE ÀS AVESSAS

... até que o condutor me bateu no ombro: "Fim da linha, seu moço".

Desci. E fui andando, meio desconfiado.

Praças com bancos de madeira, curvos e verdes como as árvores. O pé-de-moleque do calçamento irregular da rua. Os lampiões de esquina.

O quiosque (um quiosque!) de revistas, cigarros, balas, miudezas.

Mas fui andando, andando – como é que eu sabia o caminho? – e finalmente entrei na velha copa de azulejos, lá onde Tia Tula já estava, como sempre, servindo o gostoso café com leite. Entreparou e disse:

- Mas por onde terá andado esse menino?!

Aquele seu jeito, tão dela, de ralhar na terceira pessoa...

E, como eu ainda estivesse com um ar ausente: - Meu Deus, em que será que esse menino pensa tanto?

E acrescentou, baixinho:

- Até parece um velho de sessenta anos!

FC

Um dos motivos que me fazem acreditar em nossa origem extraterrestre é que o homem é o único animal que aprecia olhar os incêndios.

FIM

E chegará um tempo em que os militares inventarão um projétil tão perfeito, mas tão perfeito mesmo, que dará a volta ao mundo e os pegará por trás.

DO IMPOSSÍVEL CONVÍVIO

O mais trágico dessas reuniões sociais é que ela são compostas unicamente de terceiros.

MAS SEJA LÁ COMO FOR

Decifrar palavras cruzadas é uma forma tranqüila de desespero.

FATALIDADE

O que mais enfurece o vento são esses poetas inveterados que o fazem rimar com lamento.

COISAS INCRÍVEIS NO CÉU E NA TERRA

De uma feita, estava eu sentado sozinho num banco da Praça da Alfândega quando começaram a acontecer coisas incríveis no céu, lá para as bandas da Casa de Correção: havia uns tons de chá que se foram avinhando e se transformaram nuns roxos de insuportável beleza. Insuportável, porque o sentimento de beleza tem de ser compartilhado. Quando me levantei, depois de findo o espetáculo, havia umas moças conhecidas, paradas à esquina da Rua da Ladeira.

- Que crepúsculo fez hoje! – disse-lhes eu, ansioso de comunicação.

- Não, não reparamos em nada – respondeu uma delas. –Nós estávamos aqui esperando o Cezimbra.

E depois ainda dizem que as mulheres não têm senso de abstração...

("Na Volta da Esquina", Editora Globo, Porto Alegre, 1979)
A gravura original do trenzinho pertence ao site EBD ENSINANDO COM AMOR

15/12/09

- LXXIV -

* * *



CRÔNICA

SÃO PAULO, 23 – Morreu ontem o trapezista René Bugler, internado quando o mastro em que fazia acrobacias, quebrou e ele caiu de uma altura de 10 metros. (Do noticiário)

A pantera é uma curva em movimento:
vai-se desenrolando como um desenho.
Mas a sua harmonia é linear como
a figura que, na sucessão de um friso,
repete-se, com o andante ritmo de um verso
num poema...
O trapezista,
entanto,
não quer a pauta de uma corda única
e a curva do seu vôo traça geometrias no espaço,
vai e volta, mergulha, sobe, entrelaça-se
como se brincasse consigo mesma.
Só não se brinca com a imperfeição das coisas...
e a tua dança aérea, ó pobre René Bugler,
interrompeu-se:
tombaste, da altura de 10 metros, os braços abertos em cruz
e a maravilhosa curva que traçavas
imobilizada de súbito num corpo inerte.
Sim, tu estás, agora, na reta horizontalidade da morte.
A morte odeia curvas, a morte é reta
como uma boca fechada.
Tenho até remorsos de fazer-te um poema...
O poema
- o poema da tua vida
está apenas nisto,
nestas simples palavras:
"René Bugler, trapezista,
morto aos 22 anos
no exercício de sua arte".

INTERROGAÇÕES

Nenhuma pergunta demanda resposta.
Cada verso é uma pergunta do poeta.
E as estrelas...
as flores...
o mundo...
são perguntas de Deus.

S.O.S. EM BABILÔNIA

Na cidade dos ruídos mecânicos, atrozes
- Onde as rãs, onde os grilos, onde as misteriosas vozes

que urdiam a rede dos côncavos silêncios noturnos?

Os arroios se foram no ralo agonizantes das pias...

As últimas procissões
com as suas campânulas cada vez mais remotas
vão andando de costas como num filme passado às avessas...

(Eu estou gravando este lento poema nas paredes de uma cela)

LUNAR

As casas cerraram seus milhares de pálpebras.
As ruas pouco a pouco deixaram de andar.
Só a lua multiplicou-se em todos os poços e poças.
Tudo está sob a encantação lunar...

E que importa se uns nossos artefactos
lá conseguiram afinal chegar?
Fiquem armando os sábios seus bodoques:
a própria lua tem sua usina de luar...

E mesmo o cão que está ladrando agora
é mais humano do que todas as máquinas.
Sinto-me artificial com esta esferográfica.

Não tanto... Alguém me há de ler com um meio sorriso
cúmplice... Deixo pena e papel... E, num feitiço antigo,
à luz da lua inteiramente me luarizo...

PAISAGEM

Sol e sombra brincavam de esconder
sobre o rosto do primeiro morto.

Perto dele, cantavam as águas,
porque ainda apenas sabiam cantar.

Cantavam as águas inocentemente
sua canção de continuar...

- e ele também não sabia de nada!

VIDAS

Nós vivemos num mundo de espelhos,
mas os espelhos roubam nossa imagem...
Quando eles se partirem numa infinidade de estilhas
seremos apenas pó tapetando a paisagem.

Homens virão, porém, de algum mundo selvagem
e, com estes brilhantes destroços de vidro,
nossas mulheres se adornarão, seus filhos
inventarão um jogo com o que sobrar dos ossos.

E não posso terminar a visão
porque ainda não terminou o soneto
e o tempo é uma tela que precisa ser tecida...

Mas quem foi que tomou agora o fio da minha vida?
Que outro lábio canta, com a minha voz perdida,
nossa eterna primeira canção?!

("APONTAMENTOS DE HISTÓRIA SOBRENATURAL" – 2ª Edição, Editora Globo, Porto Alegre, 1977)

* * *

Foto: Liane Neves – Mário Quintana no Hotel Royal – Do Livro "Mário Quintana", 1ª Edição, de Márcio Vassalo, página 48 - Editora Moderna, São Paulo, 2005