"As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas. Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada."

Para a Paula, o Pedrinho e a Soraia
Dedicatória em "LILI INVENTA O MUNDO", Editora Mercado Aberto, 5ª Edição, Porto Alegre, 1985

MÁRIO QUINTANA.
MENINO, ANJO, POETA.

Fazia tempo que eu pensava em fazer um blog dedicado a Mário Quintana, poeta pelo qual guardo venerável respeito e admiração. Entretanto, se recorrermos aos sites de busca na internet, encontraremos dezenas de páginas que homenageiam este personagem tão querido de todos nós, cada um com o seu jeito mas todos voltados para a transcrição de sua obra magnífica e de sua biografia inigualável. O meu seria, apenas, mais um, entre tantos e, certamente, muito modesto. Relutei muito. Hoje, dia 15 de janeiro de 2008, enfim, decidi aceitar o desafio que fiz a mim mesmo e eis aqui "SAPATOS E CATAVENTOS", com o qual presto a minha gratidão a Mário Quintana por ter vivido entre nós. Para mim não basta ler os seus poemas, suas crônicas e citações nos livros de minha biblioteca. Acho que transcrevendo-os eles permanecem mais vivos e palpitantes, dando-me a oportunidade de compartilhar com outras pessoas o prazer, a alegria e a emoção que eles transmitem. Assim, meu querido Poeta, este blog é teu. É a única coisa que posso fazer para te dizer "obrigado".


Neste blog encontraremos esquinas, relógios, anjos e telha- dos. Nele haverá escadas e degraus, canções, ruas e ruazinhas, rãs, sapos, lampiões e grilos. Muitas vezes surgirão gatos, solidão, mortos e defuntos, pássaros, livros, noites e silêncios, ventos e fantasmas. E poesia, quando o Poeta abrir a sua alma e deixar que do mais íntimo do seu ser, brote em abundância todos os sentimentos que os comuns mortais escondem ou dissimulam por medo de se mostrarem como são. Então ele falará de velhos casarões, de telhados, calçadas, janelas, armários, jardins, luar e muros floridos. O Poeta contará historias da cidade que ama, de espelhos, de quartos, bondes e sapatos. De brinquedos, barcos, arroios, cataventos e guarda-chuvas. E de seus baús resgatará retratos de princesas e amadas, numa ciranda infindável de doces e ternas reminiscências que nos encantam e comovem. É a homenagem singela de um admirador ao Poeta que sempre o encantou pela ternura de seus poemas.



21/11/09

- LXXIII -


DA MODÉSTIA

A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta.

DA RECORDAÇÃO

A recordação é uma cadeira de balanço embalando sozinha.

DA DIFÍCIL FACILIDADE

É preciso escrever um poema várias vezes para que dê a impressão de que foi escrito pela primeira vez.

DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!


ARTE POÉTICA

Esquece todos os poemas que fizeste.
Que cada poema seja o número um.


FATALIDADE

O que mais enfurece o vento
são esses poetas inveterados
que o fazem rimar com lamento.


COISAS

Uma rãzinha verde no gris da manhã...
Um sorriso na face de um ceguinho...
Uma nota aguda como uma pergunta de criança...
Um cheiro agradecido de terra molhada...
Um olhar que nos enche subitamente de azul...


COMO VAI A POESIA?

Naqueles longes tempos, ele era vítima de um cirurgião-dentista que, de repente, do outro lado da sala do café, da outra extremidade do bonde, da calçada oposta, lançava intempestivamente o seu vozeirão:


- Como vai a poesia?


Todas as cabeças que se achavam de permeio voltavam-se então para o Poeta. O Poeta, nu, desmascarado, em meio à multidão! Para evitar esses atentados ao pudor, ele afinal descobriu um meio: fazer a pergunta antes que o outro a fizesse. Mal avistava o dentista, e antes que este erguesse as trombetas de sua voz, que não lhe soavam propriamente como as trombetas da Fama, mas como as cornetas falhas da Difamação – bradava alvissareiro o Poeta:


- Como vai o maçarico?!


As cabeças de permeio voltavam-se então escandalizadas ou irônicas para o Cirurgião-Dentista. Não porque fosse uma vergonha utilizar esse útil instrumento, mas porque maçarico era mesmo uma palavra muito engraçada, uma palavra que rimava com a dança do sarapico-pico-pico e com surubico. O resultado de tudo isso foi que os papéis se inverteram: o dentista pegou medo do poeta.


BUSCA

Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí... Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!

AS VIAGENS

O mais confortador das viagens são esses burrinhos pensativos que vemos à beira da estrada e nos poupam assim o trabalho de pensar.


FRUSTRAÇÃO

Outono: essas folhas que tombam na água parada dos tanques e não podem sair viajando pelas correntezas do mundo...


O CHÁ, OS FANTASMAS, OS VENTOS ENCANADOS...

Nasci no tempo dos ventos encanados, quando, para evitar compromissos, a "gente bem" dizia estar com enxaqueca, palavra horrível mas desculpa distinta. Ter enxaqueca não era para todos, mas só para essas senhoras que tomavam chá com o dedo mindinho espichado. Quando eu via aquilo, ficava a pensar sozinho comigo (menino, naqueles tempos não dava opinião) por que é que elas não usavam, para cúmulo da elegância, um laçarote azul no dedo...


Também se falava misteriosamente em "moléstias de senhoras" nos anúncios farmacêuticos que eu lia. Era decerto uma coisa privativa das senhoras, como as enxaquecas, pois as criadas, estas, não tinham tempo para isso. Mas em compensação, me assustavam deliciosamente com histórias de assombrações. Nunca me apareceu nenhuma.


Pelo visto, era isto: nunca consegui comunicar-me com este nem com o outro mundo. A não ser através do Tico-tico e da poesia de Camões – do qual até hoje me assombra este verso único:


"Que o menor mal de tudo seja a morte!"

Pois a verdadeira poesia sempre foi um meio de comunicação com este e com o outro mundo.


* * *

("Sapo Amarelo" – 5ª Edição, Editora Global, São Paulo, SP, 2006)

Ilustração: Liana Timm para QUINTANA DOS 8 AOS 80, Relatório da Diretoria da SAMRIG, 1985


* * *

28/10/09

- LXXII -


POEMA EM TRÊS MOVIMENTOS

I

Nossos gestos eram simples e transcendentais.
Não dissemos nada
nada de mais...
Mas a tarde ficou transfigurada
- como se Deus houvesse mudado
imperceptivelmente
um invisível cenário.

II

Eu te amo tanto que
sou capaz de nos atirarmos os dois na cratera do Fujy-Yama!
Mas, aqui,
o amor é um barato romance pornô esquecido em cima da cama
depois que cada um partiu – sem saionara nem nada –
por uma porta diferente.

III

E em que mundo? Em que outro mundo vim parar,
que nada reconheço?
Agora, a tua voz nas minhas veias corre...
o teu olhar imensamente verde ilumina o meu quarto.

O LÍMPIDO CRISTAL

Que límpido o cristal de abril!... Um grito
não vai como os da noite – para os extramundos...
Todas as vozes, todas as palavras ditas – cigarras presas
dentro do globo azul – vão em redor do mundo
e a ninguém é preciso entender o que elas dizem;
basta aquele bordoneio profundo
que vibra com o peito de cada um...
palavras felizes de se encontrarem uma com a outra
nas solidões do mundo!

NOTURNO CITADINO

Um cartaz luminoso ri no ar.
Ó noite, ó minha nega
toda acesa
de letreiros!... Pena
é que a gente saiba ler... Senão
tu serias de uma beleza única
inteiramente feita
para o amor dos nossos olhos.

BIOGRAFIA FANTASMAL

Celeste Bogari... em que recanto
da vida esse teu nome busco?

Ou te criaste apenas
nos delírios mansos
da minha memória?

Mas eu tenho a vaga... não, Celeste, eu tenho a nítida
impressão de que eras
cor de canela: assim dizia-se então...

E a tua voz – cristal puro –
ondulava no ar que nem vidro soprado
o ritmo das boas que se usavam no palco.

Ao mesmo ritmo delas...
e com a mesma envolvente brancura...
Ah, o teu ingênuo sonho de branquidão!

E esse teu nome tão lindo, e ridículo e triste, Celeste Bogari...
nem precisas contar-me como foi a tua história
- se é que um dia exististe.

VIAGEM ANTIGA

Aqui e ali
reses pastando imóveis
como num presépio

a mata ocultando o xixi das fontes

uma cidadezinha de nariz pontudo
furava o céu

depois sumia-se lentamente numa curva

e a gente olhava olhava
sem nenhuma pressa
porque o destino daquelas nossas primeiras viagens
era sempre o horizonte

SELVA SELVAGGIA

As palavras espiam como animais:
umas, rajadas, sensuais, que nem panteras...
outras, escuras, furtivas raposas...
mas as mais belas palavras estão pousadas nas frondes
mais altas, como pássaros...
O poema está parado em meio da clareira.
O poema
caiu
na armadilha! debate-se
e ora subdivide-se e entrechoca-se como esferas
de vidro colorido
ora é uma forma algébrica
ora, como um sexo, palpita... Que importa
que importa qual seja enfim o seu verdadeiro universo?
Ele em breve será inteiramente devorado pelas palavras!

OS RETRATOS

Os antigos retratos de parede
não conseguem ficar longo tempo abstratos.

Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
porque eles nunca se desumanizam de todo.

Jamais te voltes para trás de repente.
Não, não olhes agora!

O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim...
Sem fim e sem sentido...

Dessas que a gente inventava para enganar a solidão dos caminhos sem lua.

* * *

(Esconderijos do Tempo – Ed. Globo, São Paulo, 1995)
Ilustração: Laura Beatriz – Escaneada do livro (página 23) e editada.

26/10/09

- LXXI -


REGRESSO À CASA PATERNA

De volta a estas páginas, a esta minha velha sessão no Correio, voltando, enfim, aos meus fregueses de caderno, confesso que não tenho palavras para dizer tudo o que sinto – nem adianta sugerirem que neste caso eu poderia latir, uivar, ganir. Mas por que não? Espero encontrar os leitores tal como sempre foram, embora eu próprio já não seja o mesmo. Apresso-me a explicar: devido a um acidente de tráfego, colocaram-me no quadril esquerdo um parafuso de aço. Portanto, não pertenço unicamente ao reino animal: também faço parte do reino mineral...

Em todo o caso, o que mais importa é dizer o que significa o Correio do Povo, para a minha geração e para as gerações seguintes. Foi no Correio do Povo que aprendi as primeiras letras, antes de todas o “O” do título, que meu pai apontou com o dedo, por ser a mais simples, depois as mais complicadas. Até que, quando dei por mim, já sabia ler! Aqui estou de volta, pois, devidamente alfabetizado. Eu e os da Velha Guarda. E, como eu declarei ao dr. Breno Caldas, da última vez que nos encontramos: “A Velha Guarda não morre e não se entrega!”.

Disse-lhe eu isto quando a gente vivia tão-só de esperanças... Mas, agora, estamos ante a confortadora realidade de pertencer a um velho órgão que faz parte integrante da História do Rio Grande do Sul e, por conseguinte, da História do Brasil.

NOSTALGIA

Os marinheiros se embriagam tanto em cada porto na ilusão de ainda estarem sentindo o doce embalo maternal das ondas...

DIÁLOGO FAMILIAR

- Mas por que você não escreve umas coisas mais sérias?
- Ora, tia Élida! Eu já não sou mais criança...


MOTIVAÇÕES

Quando eu, guri, comecei a fumar, foi para bancar o homenzinho. Mas que adiantou? Agora cigarro é vício de mulher...


CARVALHOS & MARGARIDAS

Há poetas, há certos poemas radioativos. São os que, sem querer, vêm operando as transmutações, as mutações humanas. Não eram cogumelos súbitos. Agitava-os o vento shakesperiano de todas as paixões, de todos os cuidados. Não sei se ficamos melhores ou piores: ficamos mais profundos. Mas há, neste mundo, os que sofrem a vertigem das profundezas ou das alturas. Para esses, inclinam-se à beira da estrada umas florinhas silvestres que sempre estão se oferecendo: colhe-me, colhe-nos! E os poetas da planície fazem buquês com elas! Alguns até belíssimos, mas sem perigo algum. Pudera! Eram flores de retórica.


OS NOMES

Como não lhes interessa o que parece inútil, os campônios não dão importância às flores do campo. É o que parece. Mas a gente fica a perguntar-se como é que essas flores silvestres conseguiram então ter nomes populares: margaridas, amores-perfeitos, coisas assim!

OS COLECIONADORES

Os turistas dos discos voadores raptam, dentre nós, apenas aqueles que têm orelhas de abano – pois são ótimos para serem afixados com belos alfinetes, numa espécie de “herbário” lá deles...

* * *

(“Porta Giratória” – Editora Globo, SP, 1988)
Foto: Redimensionada e editada, de original publicado no site WIKIPÉDIA

23/09/09

- LXX -


AZRAFEL
O pobre homem, na hora fatal, queixava-se amargamente para os mirões que costumam cercar o leito dos moribundos:

- Eu vou morrer e nunca vi um disco voador! Todo mundo já viu! Todo mundo já viu um fantasma. Eu nunca!

E vai daí o Anjo dos Últimos Desejos, que, como todos sabem, atende pelo nome de Azrafel, compadeceu-se muito e imediatamente satisfez as curiosidades do pobre homem, transformando-o num fantasma dentro de um disco voador.

A GALINHA PRETA
Estava-se no fim do jantar de família. Prato de resistência: galinha ensopada. Dona Glorinha, que até então nada dizia, interrompeu a balbúrdia geral.

- Estava muito bom, obrigada; gostei muito mesmo, embora prefira galinha frita.

Uma das sobrinhas explicou:

- Frita não dava, a galinha era muito velha.

- Muito velha... – ecoou Dona Glorinha. – Não me digam que foi aquela galinha preta!

- Foi, sim – confessou a sobrinha.

Dona Glorinha ergueu-se e correu para o banheiro, com as mãos no estômago. Ao voltar, não se conteve, desabafou:

- Mas vocês! Como é que vocês não compreendem que era impossível, que eu não podia comer uma galinha que conheço pessoalmente!

O MENINO E O MILAGRE

O primeiro verso que um poeta faz é sempre o mais belo porque toda a poesia do mundo está em ser aquele o seu primeiro verso.

FATOS CONSUMADOS

... e se eles te apertarem muito sobre o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhes apenas o que Deus quis dizer com este nosso mundo...

UMA VACA

Sim, uma vaca – uma abençoada vaca – muge... O seu mugido é um rio de veludo morno.

PAISAGEM DE APÓS-CHUVA

A relva, os cavalos, as reses, as folhas, tudo envernizadinho como no dia inolvidável da inauguração do Paraíso...

ESTIVAL

Fazia tanto calor que as sombras se ocultavam debaixo da barriga dos cavalos e da copa das árvores.

ANTEMANHÃ

Trotam, trotam, desbarrancando o meu sono, os burrinhos inumeráveis da madrugada. Carregam laranjas? Carregam repolhos? Carregam abóboras?

UNI-VERSO

“Treme a folha no galho mais alto” – escrevo. Paro e sorvo, de olhos fechados, o cheiro bom da terra, do capim chovido... Parece que quer vir um poema...

Abro os olhos e fico olhando, interrogativamente, a linha que escrevi no alto da página. Depois de longo instante, acrescento-lhe três pontinhos. Assim não ficará tão só enquanto aguarda as companheiras.

O vento fareja-me a face como um cachorro. Eu farejo o poema. Ah, todo o mundo sabe que a poesia está em toda parte, mas agora cabe toda ela na folha que treme.

Por que não caberia então em um único verso? Um uni-verso.

Treme a folha no galho mais alto.

(O resto é paisagem...)
* * *

(“Sapo Amarelo”, Editora Global, São Paulo, 2006 – 5ª Edição)
Ilustração escaneada do livro. Autor, Orlando.

20/08/09

- LXIX -


CONTO AZUL

Certa vez, tinha eu quinze anos, inventei uma história que principiava assim:

"A primeira coisa que os defuntos fazem, depois de enterrados, é abrir novamente os olhos".

Mas fiquei tão horrorizado com essa espantosa revelação que não me animei a seguir avante, e a história gorou no berço, isto é, no túmulo.

IDEAIS

Os outros meninos, um queria ser médico, outro pirata, outro engenheiro, ou advogado, ou general.

Eu queria ser um pajem medieval... Mas isso não é nada.

Hoje eu queria ser uma coisa mais louca: eu queria ser eu mesmo!

TABLEAU

Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala.

Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber... Quando voltei, quando entrei inopinadamente na sala, estava ele sentado no caixão, comendo sofregamente uma das quatro velas que o ladeavam! E só Deus sabe o constrangimento em que nos vimos os dois, os nossos míseros gestos de desculpa e os sorrisos amarelos que trocamos...

AZAR

Quando guri, eu tinha de me calar à mesa: só as pessoas grandes falavam.
Agora, depois de adulto, tenho de ficar calado para as crianças falarem.

DO MANUAL DO PERFEITO CAVALHEIRO

Cuidado!

Deves tocar a campainha tão suavemente como se tocasses o umbigo da dona da casa.

RECEPÇÃO

No Céu vou ser recebido com uma banda de música. E os anjinhos estarão vestidos no uniforme da banda, com os sovacos bem suados e os sapatos apertando.

DRÁCULA

Quando me encontrei com o Conde Drácula, por uma dessas noites de inverno, na Esquina dos Ventos Uivantes, tinha ele um aspecto de um grande guarda-chuva de varetas quebradas. Foi o que eu lhe disse. Ele deu meia-volta e partiu revoando, aos solavancos, decerto para quebrar a cara do diretor do filme...

NO CÉU

No Céu é sempre domingo. E a gente não tem outra coisa a fazer senão ouvir os chatos. E lá ainda é pior do que aqui, pois se trata dos chatos de todas as épocas do mundo.

COISAS DESTE MUNDO

"Deixe de lado as coisas deste mundo" – disse o padre ao moribundo. O moribundo, então, virou as costas para o padre.

* * *

("Sapato Furado", Editora Global, 6ª edição, SP, 2006)
Ilustração: André Neves

17/07/09

- LXVIII -


A PRINCESA

Quando lhe perguntaram o nome, Lili espantou-se muito:

- Ué! Mas todo o mundo sabe...


MENTIRA?

A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer.

SONATINA LUNAR

Os padeiros da lua
derrubam farinha
na noite retinta.
Quem ganha? É o chão
que se pinta e repinta
de giz e carvão.


Rendilha de aranha
na face encantada,
moedinha de prata
escondida na mão,
minh'alma menina
fugiu para a mata.


Meu coração
bate sozinho
no velho moinho
da solidão.


Até eu me fujo...

Eu sou o corujo,
olhar enorme
que nunca dorme.
Nana, nana,
nina, nina,
alma menina...
E sonha comigo
por alguns instantes,
onde estejas tu...
Sonha comigo
como eu era dantes!


Os padeiros da lua
derrubam farinha...
O chão se repinta
de giz e carvão...


Sonha,
menina,
na mata assombrada
enquanto o moinho
vai rangendo em vão.


NOTURNO

O relógio costura, meticulosamente, quilômetros e quilômetros do silêncio noturno.

De vez em quando, os velhos armários estalam como ossos.

Na ilha do pátio, o cachorro, ladrando.

(É a lua.)

E, à lembrança da lua, Lili arregala os olhos no escuro.

HORROR

Com os seus OO de espanto, seus RR guturais, seu hirto H, HORROR é uma palavra de cabelos em pé, assustada da própria significação.

OS GRILOS

Toda a noite os grilos fritam não sei o quê. A madrugada chega, destampa o panelão: a coisa esfria...

DORME, RUAZINHA

Dorme, ruazinha... É tudo escuro...
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos...


Dorme... Não há ladrões, eu te asseguro...
Nem guardas para acaso persegui-los...
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos...


O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão...
Dorme, ruazinha... Não há nada...


Só os meus passos... Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração...


MÃE

Mãe! são três letras apenas
As desse nome bendito:
Três letrinhas, nada mais...
E nelas cabe o Infinito.
E palavra tão pequena
- confessam mesmo os ateus –
É do tamanho do Céu!
E apenas menor que Deus...


* * *

("Lili Inventa o Mundo", Editora Mercado Aberto, 5ª edição, Porto Alegre, 1985)
Ilustração – Heloisa Schneiders da Silva – escaneei do Livro.

16/06/09

- LXVII -

DENTRO DA NOITE ALGUÉM CANTOU

Dentro da noite alguém cantou.
Abri minhas pupilas assustadas
De ave noturna... E as minhas mãos, velas paradas,
Não sei que frêmito as agitou!


Depois, de novo, o coração parou.
E quando a lua, enorme, nas estradas
Surge... dançam as minhas lâmpadas quebradas
Ao vento mau que as apagou...


Não foi nenhuma voz amada
Que, preludiando a canção notâmbula,
No meu silêncio me procurou...


Foi a minha própria voz, fantástica e sonâmbula!
Foi, na noite alucinada,
A voz do morto que cantou.


PARA OS AMIGOS MORTOS

Gadeia... Pelichek... Sebastião...
Lobo Alvim... Ah, meus velhos camaradas!
Aonde foram vocês? Onde é que estão
Aquelas nossas ideais noitadas?


Fiquei sozinho... Mas não creio, não,
Estejam nossas almas separadas!
Às vezes sinto aqui, nestas calçadas,
O passo amigo de vocês... E então


Não me constranjo de sentir-me alegre,
De amar a vida assim, por mais que ela nos minta...
E no meu romantismo vagabundo


Eu sei que nestes céus de Porto Alegre
É para nós que inda São Pedro pinta
Os mais belos crepúsculos do mundo!...


VONTADE DE ESCREVER QUATORZE VERSOS

Vontade de escrever quatorze versos...
Pobre do Poeta!... É só pra disfarçar...
Andam por tudo signos diversos
Impossíveis da gente decifrar.


Quem sabe lá que estranhos universos
Que navios começaram a afundar...
Olha! os meus dedos, no nevoeiro imersos,
Diluíram-se... Escusado navegar!


Barca perdida que não sabe o porto,
Carregada de cântaros vazios...
Oh! dá-me a tua mão, Amigo Morto!


Que procuravas, solitário e triste?
Vamos andando entre os nevoeiros frios...
Vamos andando... Nada mais existe!...


A CIRANDA RODAVA NO MEIO DO MUNDO

Para Lino de Mello e Silva

A ciranda rodava no meio do mundo,
No meio do mundo a ciranda rodava.
E quando a ciranda parava um segundo,
Um grilo, sozinho no mundo, cantava...


Dali a três quadras o mundo acabava.
Dali a três quadras, num valo profundo...
Bem junto com a rua o mundo acabava.
Rodava a ciranda no meio do mundo...


E Nosso Senhor era ali que morava,
Por trás das estrelas, cuidando o seu mundo...
E quando a ciranda por fim terminava


E o silêncio, em tudo, era mais profundo,
Nosso Senhor esperava... esperava...
Cofiando as suas barbas de Pedro Segundo.


"A Rua dos Cataventos" – Edição Comemorativa, Editora da Universidade/UFRGS, Porto Alegre, 1992