"As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas. Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada."

Para a Paula, o Pedrinho e a Soraia
Dedicatória em "LILI INVENTA O MUNDO", Editora Mercado Aberto, 5ª Edição, Porto Alegre, 1985

MÁRIO QUINTANA nasceu em Alegrete, RS, em 30 de julho de 1906 e faleceu em Porto Alegre, RS, em 5 de maio de 1994. Durante toda a sua vida foi poeta. Seu jeito de menino matreiro acompanhou-o por todos os seus oitenta e oito anos pródigos de belas crônicas, versos, frases, pensamentos e poesias. Criou personagens - como o Anjo Malaquias - e fez-nos rir, chorar e nos emocionar. Este é o Quintana reverenciado neste Blog: o nosso anjo-menino, o nosso maior poeta.


* * *

Blog criado no dia 15 de janeiro de 2008

Fazia tempo que eu pensava em criar um blog dedicado a Mário Quintana, poeta pelo qual guardo venerável respeito e admiração. Entretanto, se recorrermos aos sites de busca na internet, encontraremos dezenas de páginas que homena- geiam este personagem tão querido de todos nós, cada um com o seu jeito mas todos voltados para a transcrição de sua obra magnífica e de sua biografia inigualável. O meu seria, apenas, mais um, entre tantos e, certamente, muito modesto. Relutei muito. Hoje, dia 15 de janeiro de 2008, enfim, decidi aceitar o desafio que fiz a mim mesmo e eis aqui "SAPATOS E CATAVENTOS", com o qual presto a minha gratidão a Mário Quintana por ter vivido entre nós. Para mim não basta ler os seus poemas, suas crônicas e citações nos livros de minha biblioteca. Acho que transcrevendo-os eles permanecem mais vivos e palpitantes, dando-me a oportunidade de compartilhar com outras pessoas o prazer, a alegria e a emoção que eles transmitem. Assim, meu querido Poeta, este blog é teu. É a única coisa que posso fazer para te dizer "obrigado".

O QUE HÁ NESTE BLOG?

Neste blog encontraremos esquinas, relógios, anjos e telha- dos. Nele haverá escadas e degraus, canções, ruas e ruazinhas, rãs, sapos, lampiões e grilos. Muitas vezes sur- girão gatos, solidão, mortos e defuntos, pássaros, livros, noites e silêncios, ventos e fantasmas. E poesia, quando o Poeta abrir a sua alma e deixar que do mais íntimo do seu ser, brote em abundância todos os sentimentos que os comuns mortais escondem ou dissimulam por medo de se mostrarem como são. Então ele falará de velhos casarões, de calçadas, janelas, armários, jardins, luar e muros flo- ridos. O Poeta contará historias da cidade que ama, de espelhos, de quartos, bondes e sapatos. De brinquedos, barcos, arroios, cataventos e guarda-chuvas. E de seus baús resgatará os retratos das princesas e das amadas, numa ciranda infindável de doces e ternas reminiscências que nos encantam e comovem enquanto brinca com suas girândolas. É a homenagem singela de um admirador ao Poeta inigua-lável, sempre externando candura e encantamento enquanto nos revela toda a ternura de seus poemas.


20 março 2014

– CXXXV –




Antes e depois 

Porto Alegre, antes, era uma grande cidade pequena. Agora, é uma pequena cidade grande. 

Os golfinhos

Dentre todo esse variado povo natatório, os golfinhos são os aqualoucos do mar.

O imortal amor 

Dante exagerou: Paolo e Francesca não poderiam sofrer tanto assim, pois mesmo no Inferno continuavam juntos. Ou quem sabe se não seria exatamente este o castigo? Eternamente juntos!

Isolacionistas? 

Nesses desenhos de crianças – vocês também repararam? – há alguns em que não aparece aquela costumeira estradinha que leva à porta de suas casas...

Segredos da natureza 

Todas as noites os grilos fritam incessantemente não se sabe o quê. Chega a madrugada, destampa o panelão: a coisa esfria.

Trova

Tu me disseste que sim,
Mas teu infiel coração
De um lado a outro a bater
Está dizendo que não...  

E agora? 

Há críticos que, em vez de me julgarem pelo que sou, julgam-me pelo que eu não sou.

É como quem olhasse um pessegueiro e dissesse: “Mas isso não é um trator!”

713.789 

O bom das segundas-feiras, do primeiro de cada mês e do Primeiro do Ano é que nos dão a ilusão de que a vida se renova... Que seria de nós se a folhinha estivesse marcando hoje o dia 713.789 da Era Cristã?

O vento 

O vento gosta é de cantar: quem faz uma letra para a canção do vento?

Turismo 

Aasverus: o turista perfeito.

Mobilização 

Eu olho, no papel, letra após letra, esta linha avançando. Cada letra vai surgindo do nada – ou do outro mundo – como almas urgentemente convocadas.

E cada letra é um recruta atônito. Ignora a causa da mobilização desse exército fantasma.
“Para onde vamos?”, cada qual pergunta-se.

Ah! meu bobo b, meu hirto h, meus efes e erres – todos vocês enfim –, exultem-se e consolem-se com o seu próprio comandante.

Pois eu juro que agora mesmo o ouvi dizer, bem baixinho, enquanto cofiava as suas invisíveis barbas metafísicas: “Que bela marcha! Mas à conquista do quê?”

Completude 

Olha essas antigas estátuas mutiladas! São tanto mais belas quanto mais lhes falta. Isto é, quanto mais devem à tua imaginação...

Atividades invisíveis 

Os anjos deslizam em invisíveis escadas rolantes.

Os demônios pedalam bicicletas invisíveis.

E só sabemos da sua presença por uma leve aragem na face.

Ou por uma dessas ventanias súbitas que arrepanham as saias, que nos enchem os olhos de poeira e viram os guarda-chuvas pelo avesso.

Interpretações 

“Poeta de amplo espectro, como se diz nas bulas farmacêuticas”. Assim se expressou um dia a respeito deste escriba o seu cúmplice em poesia e colendo crítico Guilhermino César. O que bastou para que alguém me interpelasse: “Como é? Ele está te chamando de fantasma?”

E, como todo o mundo tem um grão de loucura – expressão da Bíblia ou de Shakespeare, creio eu, pois o que não está na Bíblia está em Shakespeare, ou vice-versa –, Gustavo Corção, em bela crítica a meu livro Poesias, fez algumas considerações sobre a natureza específica de meu respectivo grão de loucura. Ora, por certos motivos, o revisor achou eu devia ser engano e emendou para “grau de loucura”. E foi assim que saiu na circunspecta quarta página do Correio do Povo.

E vai daí, nova interpelação amiga: “Mario, achei muito deselegante aquela referência do Corção à tua estadia na clínica Pinel”. 

Não, leitor, não sejas romântico! Eu, como todo intelectual que se preze, estava apenas atacado de stress – coisa passageira e até necessária como o sarampo, nestes nossos conturbados tempos.

E sabes do melhor? Até vais ficar com inveja, tu que vives no meio de mascarados... Lá na Pinel a gente podia rir uns dos outros!

* * *

“Da Preguiça como Método de Trabalho” – 2ª edição 2007, 1ª reimpressão 2009, Editora Globo S. A., SP

20 fevereiro 2014

- CXXXIV -




COMUNHÃO 

Os verdadeiros poetas não lêem os outros poetas. Os verdadeiros poetas lêem os pequenos anúncios dos jornais.

PASSARINHO EMPALHADO 

Quem te empoleirou lá no alto do chapéu da contravó, tico-tico surubico? Tão triste... tão feio... tão só... Meu tico-tiquinho coberto de pó... E tu que querias fazer o teu ninho na máquina do Giovanni fotógrafo!

GARE 

Faz tanto tempo que se está esperando – o trem que não vem, o trem de Belém – que as bagagens alheias, amontoadas no banco, cheiram-me a poeira de séculos: devem estar aqui, embolorando, o caduceu de Mercúrio, a cabeleira de Absalão, uma peça íntima de Cleópatra, um báculo de bispo, uma tabaqueira de Luiz XV, um ôlho de vidro, uma fivela, uma bôlsa de água quente, um lenço com um nó, um... Pestanejo. Sinto-me tão infeliz... Para que me fui meter nesse triste inventário, meu Deus? E, a cada suspiro que dou, o meu anjo da guarda perde mais uma peninha da asa.

ESTUFA 

Que imaginação depravada têm as orquídeas! A sua contemplação escandaliza e fascina. Vivem procurando e criando inéditos coloridos, e estranhas formas, combinações incríveis, como quem procura uma volúpia nova, um sexo novo... 

AVENTURA NO PARQUE 

No banco verde do parque, onde eu lia distraidamente o Almanaque Bertrand, aquela sentença pegou-me de surprêsa: “Colhe o momento que passa.” Colhi-o, atarantado. Era um não sei quê, um flapt, um inquietante animalzinho, todo asas e todo patas: ardia como uma brasa, trepidava como um motor, dava uma angustiosa sensação de véspera de desabamento. Não pude mais. Arremessei-o contra as pedras, onde foi logo esmigalhado pelo vertiginoso velocípede de um meninozinho vestido à marinheira. “Quem monta num tigre (dizia, à página seguinte, um provérbio chinês) quem monta num tigre não pode apear.”  

O ESPIÃO 

Bem o conheço. Num espelho de bar, numa vitrina, ao acaso do footing, em qualquer vidraça por aí, trocamos às vêzes um súbito e inquietante olhar. Não, isto não pode continuar assim. Que tens tu de espionar-me? Que me censuras, fantasma? Que tens a ver com os meus bares, com os meus cigarros, com os meus delírios ambulatórios, com tudo o que não faço na vida!? 

APARIÇÃO 

Tão de súbito, por sôbre o perfil noturno da casaria, tão de súbito surgiu, como um choque, um impacto, um milagre, que o coração, aterrado, nem lhe sabia o nome: - a lua! – a lua ensangüentada  e irreconhecível de Babilônia e Cartago, dos campos malditos de após-batalha, a lua dos parricídios, das populações em retirada, dos estupros, a lua dos primeiros e dos últimos tempos.  

A BELA E O DRAGÃO 

As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos... Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, A BELA DESDENHOSA. E ei-la rotulada, classificada, exorcismada, simples marionete agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de boneca de pau. E no dia em que chamares a um dragão de JOLI, o dragão te seguirá por tôda parte como um cachorrinho...

EPÍLOGO 

Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada agüenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe... Umas vêzes passa uma avalanche e não morre uma môsca... Outras vêzes senta uma môsca e desaba uma cidade.

QUEM BATE? 

Cecília. Cecília que chega de um pátio da infância... Traz ainda sereno nas tranças, seus sapatinhos andaram pulando na grama... Depois assenta-se nos degraus da tôrre, e canta...

Mas o chaveiro do sonho pegou-lhe as tranças. Teceu cordoalhas para o seu navio. Mas o chaveiro do sonho pegou-lhe a canção... E fêz um vento longo e triste.

E eu pensava que tôda a minha tristeza vinha apenas do vento, da solidão do mar, da incerteza daquela viagem num navio perdido...

* * *

“Sapato Florido” – Editora Globo, Porto Alegre, 1948

23 janeiro 2014

– CXXXIII –




Triste reflexão para mães solteiras 

Os filhos são um subproduto do amor.

Da infinita solidão 

Mas só Deus – que é único, que não tem par – poderia dizer o que é a solidão.

Placas 

Ah, meu pobre Coronel Emerenciano, quem sois vós? Quem sois vós, Dona Maurília, Fernando Ivo? Altamirando Barbosa da Silva? Quem sois vós, com todos esses inúteis cartões de visita deixados teimosamente em cada esquina? Que vergonha, velhinhos... Essa coisa de a gente virar rua é uma forma pública de anonimato. 

Poesia & lenço 

E essas que enxugam as lágrimas em nossos poemas como defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca! 

Pequenos contos da cidade pequena 

I

O Poeta está deitado de sapatos sobre a colcha de renda de bilros – relíquia da Vovozinha. 

– ... e de melhores dias – suspira o Anjo, completando-lhe o pensamento.

– Anjo, você está cada vez mais aburguesado.

– Essa não, menino! Eu não sou comunista...

II

Do ferro de engomar, que se assoprava por trás, saíam faíscas como do traseiro do Diabo. As faces de Marianinha ficavam cada vez mais afogueadas, mais lustrosas e lindas, como as maçãs artificiais que havia no centro-de-mesa da sala de jantar. Não sei por que estou evocando todos esses pormenores – eles não levam a nenhum enredo notório, desculpem... Eu me aproximo como um gato, por trás.

III

O auto que passa e a vitrina da esquina trocam um duelo de reflexos.

IV

Escarrapachadas nas cadeiras da calçada, as comadres fazem trancinha. Nada lhes escapa. Nem um ponto. Mas para o menino quieto que ali se acha a tiracolo das tias o grande escândalo é a Lua, que acaba de surgir, à traição, enorme, sangrenta, assassina – ao contrário de tudo que se esperava dela – logo ali entre as torre da igreja.

V

Noite alta um bêbado passa cantando a marchinha de um antigo carnaval. Tem uma voz de vidro moído. Uma voz aguda e esfarelada de velho.

VI

Um rodar, um estrépito de patas. Abafadamente. Mas já não se haviam sumido, há tempo, esses carros puxados a cavalo? Sia Carolina acorda e benze-se. É a Morte! É a Morte que passa, no seu carro fantasma, a visitar seus doentes.

Poeminho do contra 

Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

Eles 

Eles confundem homem famoso com tipo popular.

O ópio 

Dizem os comunistas que a religião é o ópio do povo; outros dizem que o ópio do povo é precisamente o comunismo; se pedissem a minha opinião, eu diria que o ópio do povo é o trabalho.

Recato 

Não gosto de estar dormindo nem de estar morto perto de ninguém.

Pergunta inocente 

Por que será que as pessoas virtuosas parece que estão sempre representando?

* * *

(“Na Volta da Esquina” – RBS/Editora Globo, Porto Alegre, 1979) 

29 dezembro 2013

– CXXXII –





HAI-KAI 

No meio da ossaria
Uma caveira piscava-me...
Havia um vaga-lume dentro dela.  

FILÓ 

O menino Filó era um artista no pente. Naquele velho pente envolto em papel de seda, tirava tudo, de ouvido, desde a Canção do Soldado até La donna  é mobile. A gente ficava escutando, com orgulho e inveja. Pois nenhum de nós conseguia tocar pente. Dava-nos cócegas e, como dizia a Gabriela, “a gente se agachava a sirri que não parava mais”.

Quando ele morreu, foi logo declarando a qualidade para São Pedro: “Musgo!” E São Pedro lhe deu uma gaitinha de boca. Uma linda gaitinha de boca! E até hoje ele vive explicando que não há nada como o pente... Mas o Céu é tão perfeito que na sua filarmônica não existem instrumentos de emergência: um pente, lá, é um pente mesmo.

O POEMA 

Uma
formiguinha
atravessa,
em diagonal,
a página ainda
em branco.
Mas ele,
aquela noite,
não escreveu
nada. Para quê?
Se por ali
já passado
o frêmito e
o mistério
da vida...  

SEGREDOS DA NATUREZA 

Nunca
se sabe
se uma
formiga
extraviada
estará
extraviada
mesmo...
ou o quê.  

UM PÉ DEPOIS DO OUTRO 

Será do tempo? Será do quê? Os meus sapatos rincham, os meus sapatos cantam de alegria. E eu vou andando e aguardando – cá de cima – que o seu oculto motivo chegue afinal até meu coração.  

JANELA DE ABRIL 

Tudo tão nítido! O céu rentinho às pedras. Pode-se enxergar até os nomes que andaram traçando a carvão naquele muro. Mas, mesmo que o céu soubesse ler,  isso não teria agora a mínima importância. E sente-se que Nosso Senhor, em comemoração de abril, instituirá hoje valiosos prêmios para o riso mais despreocupado, para o sapato mais rinchador, para a pandorga mais alta sobre o morro.  

MÁQUINA DE ESCREVER 

    Maria, nunca mais me escreva a máquina. Isso dá a impressão de falta de sinceridades. Porque, quanto a mim, não sei pensar a máquina. Só a lápis e esferográfica. 

    Com a esferográfica, então, e ainda mais quando em papel  gessado, o pensamento vai deslizando como esqui sobre a neve, como um trenzinho – tuc, tuc, tuc, – atravessando, preto sobre branco, as solidões geladas do norte do Canadá. 

    Com a máquina é o contrário: os dois fura-bolos com que datilografo são uns magos galináceos bicando, rápidos, vorazes, qualquer sementinha, qualquer grãozinho de idéia que apareça. Nada vinga, nada brota, e a página que ficou não é propriamente em branco, porque se me afigura um chão de terreiro deserto, poeirento e cheio de cocôs.

    E depois, como pode ser íntima uma carta escrita a máquina? Traz idéia de distância, de pequena mas intransponível distância... como um beijo dado de máscara.

* * *

("Sapo Amarelo" – 5ª Edição, Editora Global, São Paulo, SP, 2006)

23 novembro 2013

- CXXXI -


MAGIAS 

Conheço uma cidade azul.
Conheço uma cidade cor de ferrugem.
Na primeira, há helicópteros pairando...
Na segunda, espiam de seus esconderijos os olhos das ratazanas...
No entanto
é a mesma cidade
e,
onde a gente estiver,
será sempre uma alma extraviada em labirintos escusos
ou, então,
uma alma perdida de amor...
Sim! por ser habitado por almas
é que este nosso mundo é um mundo mágico...
onde cada coisa – a cada passo que se der
vai mudando de aspecto...
de forma...
de cor...
Vai mudando de alma!

TORRE AZUL 

É preciso construir uma torre
– uma torre azul para os suicidas.
Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
É preciso construir-lhes um túnel
– um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto mar perdida.

É preciso construir uma torre...
É preciso construir um túnel... É preciso morrer de puro,
puro amor!...

NOTURNO I 

O corpo adormeceu no leito.
A alma baixou às cavernas.

Da alta lucerna, o espírito
vidente e astrólogo, espreita.

E a alma descobria estrelas
do mar, velhas escadas, caracóis de cabelos,
coisas estranhas no tempo perdidas
e tantas – que pareciam, elas,
naufrágios de mil e uma
vidas...

Porém
o corpo
antes que o Dia o recomponha
na sua Humana e Divina Trindade,
o corpo – que não vigia e não sonha –

curte a sua animalidade!

DE LONGE PARA LONGE 

Embora as vejas daqui,
dentro deste mesmo ar,
as velhas catedrais
estão no fundo do mar,
cantando...

Vozes de sinos ou de preces
– é da tua alma que elas,
às vezes, surgem à tona...

E esses velhos caminhos,
embora os vejas daqui
– sabes aonde irão dar?

Caminhos são mais antigos
que a redondeza da terra.
Eles não descem os horizontes...
seguem, sozinhos, no ar.

(E ai dos caminhos que levam
de volta ao mesmo lugar!)

Dizem que os deuses morreram?
Um deus sempre está sepulto
para depois ressuscitar...

Viemos do fundo do mar,
no entanto, estamos na Lua...

Mas como se há de parar?

(Homens, sementes ocultas
cujo sonho é germinar...)

E àquele que um dia foi
do antigo Jardim expulso

ofertaremos os frutos
da Grande Árvore Estelar.

DEIXA-ME SEGUIR PARA O MAR 

Tenta esquecer-me... Ser lembrado é como
evocar-se um fantasma... Deixa-me ser
o que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo...

Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
me recamarei de estrelas como um manto real,
me bordarei de nuvens e de asas,
às vezes virão em mim as crianças banhar-se...

Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar,
as imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...

toda a tristeza dos rios
é não poderem parar!  

ESPANTOS 

Neste mundo de tantos espantos,
Cheio das mágicas de Deus,
O que existe de mais sobrenatural
      São os ateus...

* * *

(“Baú de Espantos”, 4ª Edição, Editora Globo, RJ,1988) 

27 outubro 2013

- CXXX -

 


CANÇÃO DE VIDRO

E nada vibrou...
Não se ouviu nada...
Nada...

Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.

Cala, amigo...
Cuidado, amiga...
Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre... 

E é tão puro o silêncio agora! 

CANÇÃO DE MUITO LONGE

Foi-por-cau-sa-do-bar-quei-ro

E todas as noites, sob o velho céu arqueado de bugigangas,
A mesma canção jubilosa se erguia.

A canoooavirou
Quemfez elavirar? uma voz perguntava.

Os luares extáticos...

A noite parada...

Foi por causa do barqueiro
que não soube remar.  

O PRISIONEIRO 

Os muros móveis do vento
Compõem minha casa-barco.
Quem foi que me prendeu por dentro
     De uma gota dágua?
Tolice matar-se a gente
    Só por isso...
Nem mesmo Ele, o Grande Mágico,
Foge ao seu próprio feitiço!  

ENTRE-SONO 

A manhã se debruça ao peitoril,
Não sei por que está gritando: abril, abril!
Há, por vezes, manhãs que são sempre de abril...
A manhã, com todas as suas árvores ao vento,
Traz-me as primeiras notícias da frota do Descobrimento,
Sem reparar na presença dos arranha-céus.
Mas eu nem abro os olhos: vou dormir...
Creio que ainda chegarei a tempo
Para a Primeira Missa no Brasil.  

CANÇÃO DA PRIMAVERA 

Para Érico Veríssimo

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enlouqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...

Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!  

CANÇÃO DE DOMINGO 

Que dança que não se dança?
Que trança não se destrança?
O grito que voou mais alto
Foi um grito de criança.

Que canto que não se canta?
Que reza que não se diz?
Quem ganhou maior esmola
Foi o Mendigo Aprendiz.

O céu estava na rua?
A rua estava no céu?
Mas o olhar mais azul
Foi só ela quem me deu!

CANÇÃO DO MEIO DO MUNDO 

Para Lino de Mello e Silva

A ciranda rodava no meio do mundo,
No meio do mundo a ciranda rodava.

E quando a ciranda parava um segundo
Um grilo, sozinho no mundo, cantava...

Dali a três quadras o mundo acabava,
Dali a três quadras, num valo profundo...

Bem junto com a rua o mundo acabava.
Rodava a ciranda no meio do mundo...

E Nosso Senhor era ali que morava,
Por trás das estrelas, cuidando o seu mundo...

E quando a ciranda por fim terminava
E o silêncio, em tudo, era mais profundo,

Nosso Senhor esperava... esperava...
Cofiando as suas barbas de Pedro Segundo.  

NOTURNO 

Este silêncio é feito de agonias
E de luas enormes, irreais,
Dessas que espiam pelas gradarias
Nos longos dormitórios de hospitais.

De encontro à Lua, as hirtas galharias
Estão paradas como nos vitrais
E o luar decalca nas paredes frias
Misteriosas janelas fantasmais...

O silêncio de quando, em alto mar,
Pálida, vaga aparição lunar,
Como num sonho vem vindo essa Fragata...

Estranha Nau que não demanda os portos!
Com mastros de marfim, velas de prata,
Toda apinhada de meninos mortos...

= = =

(Nova Antologia Poética, Editora Codecri, RJ, 1981)  

17 setembro 2013

- CXXIX -

 

Da Vez Primeira... 

Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha... 

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela, amarelada...
Como o único bem que me ficou!  

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!  

Minha Morte Nasceu... 

Para Moysés Vellinho 

Minha morte nasceu quando eu nasci.
Despertou, balbuciou, cresceu comigo...
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi. 

Já não tem mais aquele jeito antigo
De rir e que, ai de mim, também perdi!
Mas inda agora a estou sentindo aqui,
Grave e boa, a escutar o que lhe digo: 

Tu que és a minha doce prometida,
Nem sei quando serão as nossas bodas,
Se hoje mesmo... ou no fim de longa vida... 

E as horas lá se vão, loucas ou tristes...
Mas é tão bom, em meio às horas todas,
Pensar em ti... saber que tu existes! 

Estou Sentado Sobre a Minha Mala 

Para Athos Damasceno Ferreira 

Estou sentado sobre a minha mala
No velho bergantim desmantelado...
Quanto tempo, meu Deus, malbaratado
Em tanta inútil, misteriosa escala! 

Joguei a minha bússola quebrada
Às águas fundas... E afinal sem norte,
Como o velho Sindbad de alma cansada
Eu nada mais desejo, nem a morte...  

Delícia de ficar deitado ao fundo
Do barco, a vos olhar, velas paradas!
Se em toda parte é sempre o Fim do Mundo. 

Pra que partir? Sempre se chega, enfim...
Pra que seguir empós das alvoradas
Se, por si mesmas, elas vêm a mim? 

Sobre a Coberta o Lívido Marfim 

Sobre a coberta o lívido marfim
Dos meus dedos compridos, amarelos...
Fora, um realejo toca para mim
Valsas antigas, velhos ritornelos. 

E esquecido que vou morrer enfim,
Eu me distraio a construir castelos...
Tão altos sempre... cada vez mais belos!
Nem D. Quixote teve morte assim... 

Mas que ouço? Quem será que está chorando?
Se soubésseis o quanto isto me enfada!
...E eu fico a olhar o céu pela janela... 

Minh’alma louca há de sair cantando
Naquela nuvem que lá está parada
E mais parece um lindo barco a vela!...

Que Bom Ficar Assim... 

Para Reynaldo Moura 

Que bom ficar assim, horas inteiras,
Fumando... e olhando as lentas espirais...
Enquanto, fora, cantam os beirais
A baladilha ingênua das goteiras. 

E vai a Névoa, a bruxa silenciosa,
Transformando a Cidade, mais e mais,
Nessa Londres longínqua, misteriosa
Das poéticas novelas policiais... 

Que bom, depois, sair por essas ruas,
Onde os lampiões, com sua luz febrenta,
São sóis enfermos a fingir de luas... 

Sair assim (tudo esquecer talvez!)
E ir andando, pela névoa lenta,
Com a displicência de um fantasma inglês... 

* * * 


“Antologia Poética” - Seleção e Apresentação de Walmir Ayala – 3ª edição, Ediouro S. A. / Rio de Janeiro, 1995