"As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas. Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada."

Para a Paula, o Pedrinho e a Soraia
Dedicatória em "LILI INVENTA O MUNDO", Editora Mercado Aberto, 5ª Edição, Porto Alegre, 1985

MÁRIO QUINTANA nasceu em Alegrete, RS, em 30 de julho de 1906 e faleceu em Porto Alegre, RS, em 5 de maio de 1994. Durante toda a sua vida foi poeta. Seu jeito de menino matreiro acompanhou-o por todos os seus oitenta e oito anos pródigos de belas crônicas, versos, frases, pensamentos e poesias. Criou personagens - como o Anjo Malaquias - e fez-nos rir, chorar e nos emocionar. Este é o Quintana reverenciado neste Blog: o nosso anjo-menino, o nosso maior poeta.


* * *

Blog criado no dia 15 de janeiro de 2008

Fazia tempo que eu pensava em criar um blog dedicado a Mário Quintana, poeta pelo qual guardo venerável respeito e admiração. Entretanto, se recorrermos aos sites de busca na internet, encontraremos dezenas de páginas que homenageiam este personagem tão querido de todos nós, cada um com o seu jeito mas todos voltados para a transcrição de sua obra magnífica e de sua biografia inigualável. O meu seria, apenas, mais um, entre tantos e, certamente, muito modesto. Relutei muito. Hoje, dia 15 de janeiro de 2008, enfim, decidi aceitar o desafio que fiz a mim mesmo e eis aqui "SAPATOS E CATAVENTOS", com o qual presto a minha gratidão a Mário Quintana por ter vivido entre nós. Para mim não basta ler os seus poemas, suas crônicas e citações nos livros de minha biblioteca. Acho que transcrevendo-os eles permanecem mais vivos e palpitantes, dando-me a oportunidade de compartilhar com outras pessoas o prazer, a alegria e a emoção que eles transmitem. Assim, meu querido Poeta, este blog é teu. É a única coisa que posso fazer para te dizer "obrigado".

O QUE HÁ NESTE BLOG?

Neste blog encontraremos esquinas, relógios, anjos e telhados. Nele haverá escadas e degraus, canções, ruas e ruazinhas, rãs, sapos, lampiões e grilos. Muitas vezes surgirão gatos, solidão, mortos e defuntos, pássaros, livros, noites e silêncios, ventos, reticências e fantasmas. E poesia, quando o Poeta abrir a sua alma e deixar que do mais íntimo do seu ser, brote em abundância todos os sentimentos que os comuns mortais escondem ou dissimulam por medo de se mostrarem como são. Então ele falará de velhos casarões, de calçadas, janelas, armários, jardins, luar e muros floridos. O Poeta contará historias da cidade que ama, de espelhos, de quartos, bondes e sapatos. De brinquedos, barcos, arroios, cataventos e guarda-chuvas. E de seus baús resgatará os retratos das princesas e das amadas, numa ciranda infindável de doces e ternas reminiscências que nos encantam e comovem enquanto brinca com suas girândolas. E a homenagem singela de um admirador ao Poeta inigualável, sempre externando candura e encantamento enquanto nos revela em plenitude a ternura de seus poemas.

30 junho 2016

– CLXIII –


DA PREGUIÇA COMO MÉTODO DE TRABALHO 

Cantinflas 

     É sabido como o estilo Cantinflas tem influenciado a literatura.
Isso, porém, não é motivo para a dublagem de seus filmes em português. Pois não há quem não reconheça como a voz faz parte de uma personalidade. Ainda mais no caso daquele meu ilustre xará.

    E a Greta Garbo, então? Vocês já a imaginaram falando com voz de falsa grã-fina carioca? Se ao menos fosse a voz de uma gaúcha...  

    Acontece também que o público está acostumado a ler os letreiros nas telas. Vou mais longe, digo que foi esse mesmo público o verdadeiro inventor da tão badalada leitura dinâmica.

    Tirar aos aficionados do cinema a sua costumeira leitura-relâmpago é fazer sabotagem à campanha do Mobral – pois abriríamos as salas de projeção exatamente a esses a quem se deveria convencer, antes de tudo, que o analfabetismo é uma porta fechada.

Dezessete pastéis de Santa Clara 

    Sim, morreu o Procópio. Um artista de palco morre mesmo. Os do cinema ficam enlatados e podem ressuscitar a qualquer momento. Quando em Paris foram exibidos os primeiros filmes, um jornalista escreveu esta manchete genial: “Morte, onde está a tua vitória? Já existe o cinema!”. A vida que um ator assume no palco é tanto mais pungente por ser tão efêmera como o papel que nos coube na vida.

    A primeira vez que me vi cara a cara com Procópio foi na confeitaria Central, onde, por acaso do vaivém das gentes, fiquei a sós numa mesa com ele. Olhou-me sem dizer palavra, evidentemente à espera de que eu lhe pedisse um autógrafo. Ora, eu era um adolescente e haverá alguém mais orgulhoso do que um adolescente? Portanto, nada lhe disse. Procópio, então, me pediu ironicamente um autógrafo. É verdade que, quando éramos vários à mesa, ele havia devorado dezessete pastéis de Santa Clara. Não sei se isso explica alguma coisa, mas quem nunca provou pastéis de Santa Clara não sabe qual é o alimento dos anjos. Depois chegaram, ou voltaram, outros anjos – perdão! outros amigos, o Dante Barone, o Casemiro, o Pelichek... E o vaivém continuou na terra comono céu.

Commedia dell’amore 

    Quanta história a gente inventa com a maior sinceridade – a história de que me quiseste, a história de que te quis... Tudo foi comédia? Não. Um artista põe toda a alma que ele tem no papel que representa. Por isso a gente é tão feliz... e tão desgraçada também.

Comunicação 

    O público ledor (existe mesmo!) é sensorial: quer ter um autor ao vivo, em carne e osso. Quando este morre, há uma queda de popularidade em termos de venda. Ou, quando teatrólogo, em termos de espetáculo. Um exemplo: G. B. Shaw. E, entre nós, o suave fantasma de Cecília Meireles recém está se materializando, tantos anos depois.

    Isto apenas vem provar que a leitura é um remédio para a solidão em que vive cada um de nós neste formigueiro. Claro que não estou me referindo a essa vulgar comunicação festiva e efervescente.

    Porque o autor escreve, antes de tudo, para expressar-se. Sua comunicação com o leitor decorre unicamente daí. Por afinidades. É como, na vida, se faz um amigo.
E o sonho do escritor, do peta, é individualizar cada formiga num formigueiro, cada ovelha num rebanho – para que sejamos humanos e não uma infinidade de Xerox infinitamente reproduzidos uns dos outros.

    Mas acontece que há também autores Xerox, que nos invadem com aqueles seus best-sellers...

    Será tudo isto uma causa ou um efeito?

    Tristes interrogações para se fazerem num mundo que já foi civilizado.

A indumentária

    – Por que os fantasmas sempre aparecem vestidos? Sendo a morte um segundo nascimento, por que não surgem ao natural, tal como vieram a este mundo? Será que o Outro Mundo tem desses puritanismos? Nada disso! É que os fantasmas ficam com vergonha de que a gente descubra que as almas não têm sexo.  

Pinacoteca de bolso 

    Ora pois, como eu me queixasse a Waldeni Elias de que não disponho de paredes onde colocar suas telas, enviou-me ele um quadrinho seu “que cabe exatamente na algibeira do teu fato domingueiro”, conforme diz em sua carta. Aqui o tenho, pois, em seu estojo protetor de pano, no bolso da minha roupa de todos os dias. E o mostro a todo mundo. Que tela é para ver. Da mesma forma que poema é para ler. Menos para explicar. “O belo e o inteligível sem reflexão.” Estas palavras são do velho Kant. Se recorro antiquadamente a ele é porque francamente não sei qual é o atual filósofo de passarela. O que está na moda citar. Só digo, portanto, que o quadrinho é muito para ver e que Deus conserve sempre assim a Elias, esse nosso querido e admirado pinta-mundos.

* * *

“Da Preguiça como Método de Trabalho” – 2ª edição 2007, 1ª reimpressão 2009, Editora Globo S. A., SP 

31 maio 2016

– CLXII –

- ESPELHO MÁGICO - 

XLIX – Dos pequenos ridículos 

Nunca faças escândalos. Ao menos,
   Visto que tanto ousas,
   Não os faças pequenos...
O ridículo está é nas pequenas cousas.

L – Da amizade entre mulheres 

Dizem-se amigas... Beijam-se... Mas qual!
    Haverá quem nisso creia?
Salvo se uma das duas, por sinal,
    For muito velha, ou muito feia.

LI – Da inconstância das mulheres 

Deixaram-te por outro... e te arrelias
Contra esse antigo, feminil defeito.
Outro refrão, porém, me cantarias,
Se ela traísse a alguém em teu proveito...

LII – Do que elas dizem 

O que elas dizem nunca tem sentido?
Que importa? Escuta-as um momento.
Como quem ouve, entre encantado e distraído,
A voz das águas... o rumor do vento...

LIII – Das leis da natureza

Falar contra as mulheres...
Que ingenuidade a tua!
Dize-me, acaso queres
Ironizar as variações da lua?

LIV – Do golpe de vista 

Ah, quem me dera, ante o espetáculo do mundo,
Sem mais hesitações e sem maior fadiga,
Esse instantâneo olhar, incisivo e profundo,
Com que julga a mulher as toaletes da amiga!

LV – Do espetáculo desta vida 

Impossível será que melhor vida exista,
Enquanto o mundo assim se distribuir:
No palco a Estupidez, para ser vista,
E a Inteligência na plateia, a rir...

LVI – Da compreensão 

Uns dizem mal de nós, mas sempre existe alguém
    Que nos estime, afinal...
E todo o bem que diz, esse precioso bem...
    Meu Deus!... como o diz mal!

LVII – De sinceridade 

Tens um amigo que fala bem
E um cão que nada explica.
Um jura-te amizade... O outro, porém,
Seus bons serviços te dedica.

LVIII – Do direito de contradizer-me 

Que eu tenha um juízo ab-eterno
E sempre a mesma opinião?
Mas por que devo suar no inverno
Só porque o fiz no verão?

LIX – Do riso 

As setas de ouro de teu riso inflige
À sombra que te quer amedrontar.
    Um canto muros erige:
    Um riso os faz desabar.

LX – Da interminável despedida 

Ó Mocidade, adeus! Já vai chegar a hora!
Adeus, adeus... Oh! essa longa despedida...
E sem notar que há muito ela se foi embora,
Ficamos a acenar-lhe toda a vida...

* * *

“Espelho Mágico” – Ed. Globo, SP – 2ª Edição 2005, 6ª Reimpressão 2009


25 abril 2016

- CLXI -

APONTAMENTOS DE HISTÓRIA SOBRENATURAL

POEMA OLHANDO UM MURO 

Do
escuro do meu quarto
– imóvel como um felino, espio
a lagartixa imóvel sobre o muro: mal sabe ela
da sua graça ornamental, daquele
verde
intenso
na lividez mortal
da pedra... ah, nem sei eu também o que procuro, há tanto...
nesta minha eterna espreita!
Pertenço acaso à raça odiada dos mutantes?
Ou
sou, talvez
– em meio às espantosas aparências de algum mundo estranho –
um espião que houvesse esquecido o seu código, a sua sigla, tudo...
– menos
a gravidade da sua missão! 

O MORITURO 
    
Por que é que assim, com suas caras móveis e simiescas,
os vivos nos devassam, num cínico impudor?
Por que nos olham assim – como se fôramos cousas –
quando os nossos traços vão repousando, enfim,
na tranqüila dignidade da morte?
Por que é que eles, com a sua obscena curiosidade,
não respeitam o ato mais íntimo de nossa vida
– ato que deveria ser testemunhado apenas pelos Anjos?
Ah, que Deus me guarde na hora de minha morte, amém,
que Deus me guarde da humilhação desse espetáculo
e me livre de todos, de todos eles:
não quero os seus olhos pousando como moscas na minha cara.
Quero morrer na selva de algum país distante...
Quero morrer sozinho como um bicho! 

INSTRUMENTO

Impossível fazer um poema
neste momento.
Não, minha filha, eu não sou a música
– sou o instrumento. 

Sou, talvez, dessas máscaras ocas
num arruinado monumento:
empresto palavras loucas
à voz dispersa do vento...  

AXIOMAS

     Um ovo, um cacto, um chafariz, um anjo de túmulo, um lampião é o único que existe.  E um cavalo... ah, é verdadeiro porque é único. Um poeta é o único poeta que existe no mundo. Deus é o Deus único e verdadeiro. 

DESCOBERTAS

Descobrir Continentes é tão fácil como esbarrar com um elefante:
Poeta é o que encontra uma moedinha perdida... 

ELEGIA URBANA 

Rádios. Tevês.
Gooooooooooooooooooooooolo!!!
(O domingo é um cachorro escondido debaixo da cama) 

ESCADAS 

Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas: conturbam...
Quando as desce, a gente
Se desparafusa...
Quando a gente as sobre
Se parafusa
                  – o peito
                    estreito –
                                  o teto descendo
Descendo descendo como nas histórias de imortal horror!
Mas de que jeito,
Mas como pode ser,
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso?
Além disso não têm, pelo que dizem, nenhuma acústica...
Oh! não há como as escadarias daqueles antigos edifícios públicos
Para ser assassinado...
Porém não fiques tão eufórico,
– nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em direção ao teu quarto
E “sabes” que é um fantasma chamejante e fosfóreo
– o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes!
O melhor
Mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa...
Pensa, pensa
– o quanto antes!
Naquelas pobres escadas de madeira das casas pobres
– escurinho dos teus primeiros aconchegos...
Pensa em cascatas de risos
Escada abaixo
De crianças deixando a escola...
Pensa na escada do poema
Que tu
            comigo
                        vens descendo  
                                               agora...
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não! este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo...
Ah, tu querias que eu te embalasse?!
Eu estava, apenas, explorando uns abismos...

* * *
(“Apontamentos de História Sobrenatural” – Ed. Globo, Porto Alegre, 1977) 

26 março 2016

- CLX -

- LILI INVENTA O MUNDO - 


Canção de inverno 

“Pinhão quentinho!
Quentinho o pinhão!”
(E tu bem juntinho
Do meu coração...)       
      
Cantiguinha de verão 

Anda a roda
Desanda a roda 

E olha a lua a lua a lua! 

Cada rua tem a sua roda
E cada roda tem a sua lua

No meio da rua
Desanda a roda: Oh,

Ficou a lua
Olhando em roda... 

Triste de ser uma lua só!

Verão 

     Há sempre, afastada das outras, uma nuvenzinha preguiçosa que ficou sesteando no azul. 

Pequenos tormentos da vida 

     De cada lado da sala de aula, pelas janelas altas, o azul convida os meninos, as nuvens desenrolam-se, lentas, como quem vai inventando preguiçosamente uma história sem fim... Sem fim é a aula: e nada acontece, nada... Bocejos e moscas. Se ao menos, pensa Lili, se ao menos um avião entrasse por uma janela e saísse pela outra! 

Coisa louca 

     Eu te amo como se ama um cachorrinho verde.

Noturno arrabaleiro 

Os grilos... os grilos... Meu Deus, se a gente
Pudesse
Puxar
Por uma
Perna
Um só
Grilo,
Se desfiariam todas as estrelas!

Essa não! 

     Lili teve conhecimento dos antípodas, na escola. Logo que chegou em casa, começou a deitar sabença pra cima da cozinheira. Falou, falou, e, como visse que Sia Hortênsia não estava manjando nada, ergueu no ar o dedinho explicativo: 

    - Imagine só que quando aqui é meio-dia lá na China é meia-noite! 

    - Credo! Eu é que não morava numa terra assim... 

    - Mas por que, Sia Hortênsia? 

    - Uma terra onde o dia é de noite... Cruzes! 

Dupla delicia 

    O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

Os sonhos das lagartas 

    As lagartas não podem acreditar na lenda das borboletas – tão antiga entre o seu rastejante e esforçado povo... mas sua felicidade consiste em relembrar, às vezes, o absurdo e maravilha desse velho sonho: o de se transformarem, um dia, em borboletas.

Camuflagem 

    A esperança é um urubu pintado de verde. 

Botânica 

    A verdadeira couve-flor é a hortência. 

Canção da primavera 

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando. 

Catavento enlouqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando. 

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo... 

Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido! 

* * * 

("Lili inventa o mundo", Ed. Mercado Aberto, Porto Alegre, 5ª Edição, 1985) 

24 março 2016

- CLIX -

- SAPATO FLORIDO - 

TRÁGICO ACIDENTE DE LEITURA 

       Tão cômodamente que eu estava lendo, como quem viaja num raio de lua, num tapête mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÔNDITO. Que momento passei!... O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se posta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano prêto, como um duplo monstro misterioso e corcunda... O terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: fogo! 

EXEGESE 

     - Mas que quer dizer êsse poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.

    - E que quer dizer uma nuvem? - retruquei triunfante. 

    - Uma nuvem? - diz ela. - Uma nuvem umas vêzes quer dizer chuva, outras vêzes bom tempo... 

PERVERSIDADE 

    Alarmar senhoras gordas é um dos maiores encantos desta e da outra vida. 

FATALIDADE 

    Em todos os velórios há sempre uma senhora gorda que, em determinado momento, suspira e diz: 

    - Coitado! Descansou... 

QUIEN SUPIERA ESCRIBIR! 

    O menino de joelhos sujos que chega em casa correndo e mal pode falar... 

    A velha dama que é agora obrigada a fazer renda para vender... de casa em casa, a coitada!... e que senta na ponta da cadeira, suspira discretamente e murmura: “A minha vida é um romance...” 

    Aquela moça que diz: “Não quero ouvir isto!” e tapa os olhos... 

    Ah, quanta coisa deliciosamente quotidiana, quanto efêmero instante, eu não gravaria para sempre na memória dos homens, se... 

DA DÚVIDA 

    Felizmente parece que o Além não resolve coisa alguma, e a confusão continua a mesma, senão maior... Posso, pois, morrer descansado e levar os meus probleminhas comigo, que não me faltará distração. Não me refiro à quadratura do círculo, que pouco se me dá, nem ao moto contínuo. Penso é nas mil e uma perplexidades da minha condição de escriba, nesses cruciantes imponderáveis, no eterno problema da subjetividade do pronome se...  

DO TEMPO 

    Nunca se deve consultar o relógio perto de um defunto. É uma falta de tato, meu caro senhor... uma crueldade... uma imperdoável indelicadeza... 

INTERCÂMBIO

    Vovô tem um riso de cobre – surdo, velho, azinhavrado – um riso que sai custoso, aos vinténs. 

    Mas Lili, sempre generosa, lhe dá o trôco em pratinhas novas. 

A PRINCESA

    Quando lhe perguntaram o nome, Lili espantou-se muito: 

    - Ué! Mas todo o mundo sabe... 

O CACHORRO 

    Do quarto próximo, chega a voz irritada da arrumadeira: 

    - Meu Deus! a gente mal estende a cama e já vem êsse cachorro deitar em cima! Salta daí pra fora! 

    E Lili, muito formalizada: 

    - Finoca! o “cachorro” tem nome! 

DA HUMILDE VERDADE 

    O quotidiano é o incógnito do mistério.

MUDANÇA DE TEMPERATURA 

    Nos fios telegráficos pousaram uma, duas, três, quatro andorinhas.

    Olham de um lado e outro... Irão partir? 

    Sôbre as cêrcas rasas do arrabalde, os girassóis espiam como girafas... 

* * *

“Sapato Florido” – Editora Globo, Porto Alegre, 1948

19 fevereiro 2016

– CLVIII –

- NA VOLTA DA ESQUINA - 

Um epitáfio para Catulo da Paixão Cearense
    Catulo não morreu: luarizou-se...
Compensações
    Já repararam? A má reputação sempre faz parte da fama...
Anjo
    Ser celestial metediço na vida terrena, uma espécie de  Relações-Públicas de Nosso Senhor.
Guerra
    Método Prático de Geografia.
Morte
    Nada de maior; simples passagem de um estado para outro – assim como quem se muda do estado do Rio Grande do Sul para o estado de Santa Catarina...
Pobres
    Espetáculo predileto dos ricos.
Ricos
    Espetáculo predileto dos pobres.
O poeta e a menina
    Hoje ganhei o meu dia. Porque uma meninazinha me perguntou: “O senhor pode me botar uma dedicação neste livro?” Escrevi, então, sinceramente: “Para a Heloísa Maria, com toda a minha dedicação”. E assinei. E datei, com tristeza.  
A data
    Sim, o mais triste das dedicatórias são as datas.
Meditação para o dia de Natal
    Ah! Aquela confiança que tem uma criança rezando... Inocente confiança. Alegria. Quem é de nós que reza com alegria? Parece que só existe mesmo o Deus das crianças... Deus é impróprio para adultos.
Policiais
    Dashiell Hashmett dizem que é o inspirador do que hoje consideram a nova linha do romance policial. Nova? Nick Carter (lembram-se?) já resolvia tudo a soco. Grande coisa! Assim, até eu e tu, leitor, se tivéssemos força... O detetive ideal, para mim, é o que tem uma poltrona. O detetive dedutivo. Até o próprio Sherlock foi às vezes infiel a si mesmo, com grande consternação de todos nós.
    Outra interferência indébita, na pureza do gênero, são as mulheres, As mulheres enchem as escadarias de gritos. As mulheres, nas ocasiões menos  adequadas, histerizam o grave desenrolar da ação, esquecidas de que o silêncio é o grande fator do suspense. Isto quando não se metem a criar um caso sentimental com alguns personagens ou com o próprio detetive. Neste caso, se o detetive for mesmo o tal, deve convencê-las de que são personagens perdidas de algum outro livro, de um outro gênero e para outros leitores.
Nobreza
    Escreveu Buffon que o cavalo é um nobre animal. Bobagem... Nobre animal é o poeta!
A grande surpresa
    Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo...
* * *

(“Na Volta da Esquina” – Ed. Globo, 1979)

26 janeiro 2016

- CLVII -

- SAPO AMARELO - 

CALÇADA DE VERÃO

Quando o tempo está seco, os sapatos ficam tão contentes que se põem a cantar.

LIBERTAÇÃO 

Não há maior euforia, numa orquestra, como a dos pratos – tlin! tlin! tlan!!! – quando se vingam, enfim, do seu longo, do seu forçado silêncio.

DONA GLORINHA NO CIRCO 

Dona Glorinha estava que não podia! Aquele homem que rodava no espaço, cada vez mais rápido, e preso apenas pelos dentes a uma roldana... Dona Glorinha sentia doerem-lhe os dentes, não os de agora, os outros... Dona Glorinha não pôde mais. E bradou, em meio do suspense geral: “Basta, cruel!”

GENOVEVAS E SERAFINAS 

Um ser humano só é ele mesmo enquanto os pais ainda estão discutindo um nome para o batizar. Até então, é anônimo como um animalzinho sem dono, simples filho da Natureza e de mais ninguém. Sem laços de parentesco e outras contingências sociais. E depois, está correndo o risco de lhe darem um desses horrendos nomes tradicionais de família.

Na minha, felizmente, deixaram de aparecer, desde a penúltima geração, as Serafinas e Genovevas. A boa, a querida vovó Genoveva! O seu único defeito era ser tão antieufônica... Como seria possível a um namorado suspirar um nome desses?! 

UM DIÁRIO INTIMO DO FIM DO SÉCULO TRINTA 

Tenho 9 anos. Meu nome é Gravilo. Meu professor só hoje me permitiu uma ida ao Jardim Botânico, por causa da minha redação sobre a fórmula de Einstein. Elogiou em aula o meu trabalho porque, disse ele, em vez de dar-lhe uma interpretação, como fazem todas as crianças, eu me limitei a dizer que aquela simples fórmula era uma coisa tão absurda e maravilhosa e inacreditável como as lendas pré-históricas, por exemplo a Lâmpada de Aladino ou a Vida de Napoleão e seu Cavalo Branco. Por isso começo hoje o meu diário, que eu devia ter começado aos 7 anos. Mas nessa idade a gente só escreve coisas assim: “A Adalgiza caminha como um saca-rolha” ou “pusemos na Inspetora Geral do Ensino o apelido de Dona Programática”. Pois lá me fui com outros meninos e meninas que também tenham merecido menção pública, ao Jardim Botânico, que me pareceu pequeno porque constava apenas de uma cúpula de vidro. Havia uma fila enorme de turistas e visitantes domingueiros. Lá dentro não era apenas ar condicionado, era um vento leve, uma “brisa”, explicou-nos o professor. Uma brisa que agitava os cabelos da gente e as folhas da árvore. Sim, porque lá dentro só havia uma árvore, a única árvore do mundo e que se chamava simplesmente “a árvore”, pois não havia razão para a diferençar de outras. Suas folhas agitavam-se e tinham um cheiro verde. Não sei se me explico bem. Não importa: este diário é secreto e será queimado publicamente com outros, de autoria dos meninos da minha idade, quando atingirmos os 13 anos. Dona Programática nos explicou a necessidade desses diários porque, “para higiene da alma e preservação do individuo, todos têm direito a uma vida secreta, ao contrário do que acontecia nos tempos da Inquisição, da Censura, dos sucessores do Dr. Sigmund Freud e dos entrevistadores jornalísticos”.

Isto diz a Dona Programática. Mas o nosso professor de Redação, que não é tão cheio de coisas, diz que estes nossos diários secretos servem para a gente dizer besteiras só por escrito em vez de as dizer em voz alta.

Na próxima vez tratarei de fazer uma boa redação sobre a Árvore para ver se ganho o prêmio de uma visita ao Zôo – onde está o Cavalo. Andei indagando dos grandes sobre este novo cavalo e me disseram que não, que ele não era branco. Uma pena...

MADRIGAL 

As velhinhas bonitas são passas de uva. Havia, não me lembro agora se no País das Maravilhas, da Alice, ou se na Cidade de Oz, uma velha que morava num sapato... E nós que moramos em caixas de sapatos!

* * *

("Sapo Amarelo" – 5ª Edição, Editora Global, São Paulo, SP, 2006)